Mulheres dedicam mais horas semanais a cuidados não remunerados, aponta pesquisa

As mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse trabalho não remunerado e socialmente invisível totaliza mais de mil horas anuais dedicadas ao cuidado de filhos, maridos e pais.

Um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, principalmente filhas, cônjuges e netas, com média de idade de 48 anos. Este fenômeno é observado globalmente.

De acordo com a pesquisadora Valquiria Elita Renk, da PUCPR, mulheres e meninas são as mais afetadas na vida profissional e nos estudos devido aos cuidados. Ela destaca que o trabalho do cuidado tem um forte cunho cultural no Brasil.

Alguns países já implementaram políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e Dinamarca, assistentes domésticos são pagos pela municipalidade. França, Áustria, Alemanha e Holanda também oferecem custeio para alguns serviços. No Reino Unido e Irlanda, o Estado compensa a perda de renda durante o período de assistência a familiares. Na Espanha, existe uma lei que inclui compensação econômica para cuidadores familiares.

No Brasil, a Política Nacional do Cuidado foi instituída no final de 2024, mas ainda está em implementação. A professora Valquiria defende que o reconhecimento social e a compensação financeira são necessários para aliviar a sobrecarga das cuidadoras.

A pesquisa incluiu entrevistas com 18 mulheres do Paraná e Santa Catarina, responsáveis pelo cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência. A maioria são idosas que dedicam seu tempo de descanso e lazer ao cuidado, afirmando que fazem isso por obrigação.

A maioria das cuidadoras são filhas (68%), esposas (21%), netas e irmãs (5%), com idades entre 41 e 60 anos (43%), mais de 60 anos (37%) e entre 21 e 30 anos (22%). São mulheres escolarizadas, sendo 58% com ensino fundamental, 30% com curso superior e 11% com ensino médio.

Profissionalmente, 32% são agricultoras, 26% atuam no mercado formal, 26% são aposentadas, 11% do lar e 5% estudantes. A maioria (61%) parou de trabalhar para cuidar de familiares, especialmente as agricultoras.

As mulheres relatam cansaço, solidão e desamparo, sem bonificação ou previdência. A responsabilidade é internalizada, e a ética da responsabilidade dita que o cuidado é prioritário.

O estudo sugere que a educação deve promover a divisão igualitária do trabalho doméstico entre meninos e meninas. A sobrecarga é mais intensa na ‘Geração Sanduíche’, composta por mulheres que gerenciam trabalho formal, casa e cuidados familiares simultaneamente.

Em casos recentes de divórcio no Brasil, alguns juízes têm concedido que maridos paguem pelo tempo dedicado ao cuidado dos filhos. O estudo foi conduzido pelas pesquisadoras Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia.

Fonte: Agência Brasil

Leia mais