Na Venezuela, sanções dos EUA contribuíram para colapso econômico

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Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do planeta, tem sido alvo de ações militares recentes dos Estados Unidos, com o objetivo explícito de forçar a saída de Nicolás Maduro da presidência, agravando os efeitos de anos de sanções econômicas impostas por Washington, conhecidas como Medidas Coercitivas Unilaterais. Essas restrições, justificadas pelos EUA sob o pretexto de defesa dos direitos humanos, promoção da democracia e combate ao narcotráfico, visam asfixiar economias de governos considerados adversários, gerando descontentamento social e pressionando por mudanças de regime, conforme análise da economista e socióloga Juliane Furno, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O bloqueio financeiro e comercial obstruiu o financiamento da indústria petroleira estatal PdVSA, impôs restrições ao refinanciamento da dívida externa, congelou ativos venezuelanos no exterior — inclusive transferindo-os para o controle da oposição — e dificultou transações monetárias no mercado global. Países aliados, como Portugal e o Reino Unido, aderiram à medida: o Banco Central da Inglaterra confiscou 31 toneladas de ouro venezuelano, avaliadas em 1,2 bilhão de dólares. Washington estendeu o cerco com sanções secundárias, punindo empresas de terceiros países que negociavam com Caracas, e proibiu o pagamento de dividendos da Citgo, filial da PdVSA nos EUA, que foi liquidada pela justiça americana no final de 2025 para quitar dívidas internacionais — um ato denunciado pelo governo venezuelano como roubo puro.

Entre 2018 e 2020, novas restrições atingiram o comércio de ouro, minérios, petróleo e diesel, aprofundando o colapso da economia rentista petroleira, onde mais de 95% das receitas de exportação provêm do óleo. A retração do setor passou de 11,5% em 2017 para 30,1% em 2018, o primeiro ano pleno do bloqueio financeiro, resultando em perda de 8,4 bilhões de dólares em divisas essenciais para importações, segundo pesquisa do economista Jeffrey Sachs. No total, as sanções custaram à Venezuela receitas petrolíferas de 226 bilhões de dólares entre 2017 e 2024, equivalentes a 213% de seu PIB, impulsionando uma hiperinflação que chegou a 344.510% interanual em 2019, com preços multiplicados por 3.400 vezes em um ano.

Especialistas, incluindo o economista venezuelano Francisco Rodríguez, da Universidade de Denver — crítico do chavismo — reconhecem que má gestão interna contribuiu para a recessão pré-2017, mas enfatizam o papel decisivo das sanções no agravamento da crise, interrompendo receitas usadas para importar alimentos, remédios e insumos. Relatórios da ONU, como o da relatora especial Alena Douhan, apontam que as medidas setoriais ao petróleo, ouro e mineração exacerbaram a crise pré-existente, reduzindo drasticamente receitas estatais e colapsando serviços públicos de eletricidade, água, transportes, saúde e educação, violando direitos humanos fundamentais e o direito internacional. Estima-se que, só entre 2017 e 2018, os embargos tenham custado mais de 40 mil vidas e 6 bilhões de dólares.

A Venezuela enfrentou o bloqueio desde 2014, intensificado por ordens executivas de Barack Obama, Donald Trump e aliados, que declararam o país uma ameaça à segurança nacional americana. A recuperação econômica a partir de 2022, sob o governo Joe Biden com alívio parcial das sanções, reforça o impacto das medidas: o PIB, que encolheu 75% entre 2013 e 2022, começou a se estabilizar, embora ações militares recentes elevem a incerteza. Rodríguez projeta que sanções de pressão máxima poderiam impulsionar a emigração de mais 1 milhão de venezuelanos em cinco anos, destacando como o cerco fragiliza economias e destrói o tecido social de nações soberanas.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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