Layla Lima Ayub, recém-aprovada em concurso público para o cargo de delegada na Polícia Civil de São Paulo, foi presa na manhã desta sexta-feira na capital paulista por suspeita de advogar para o Primeiro Comando da Capital (PCC). A delegada, que ainda cumpria estágio probatório e frequentava a Academia de Polícia sem atuar na função, foi detida em uma pensão na zona oeste da cidade, onde vivia com um suposto namorado integrante da facção criminosa.
Aprovada em dezembro de 2025 e empossada em 19 de dezembro durante solenidade no Palácio dos Bandeirantes, Layla já exercia a advocacia de forma irregular após a nomeação. Provas robustas apontam que, em 28 de dezembro, ela participou de uma audiência de custódia em Marabá, no Pará, defendendo lideranças do PCC presas por tráfico de drogas e associação criminosa — prática vedada pelo Estatuto da Advocacia e normas estaduais para delegados. O corregedor-geral da Polícia Civil de São Paulo, João Batista Palma Beolchi, destacou que essa atuação, mesmo após o curso de formação como delegada, já produz efeitos imediatos nas investigações.
As apurações, deflagradas pela Operação Serpens em ação conjunta do Ministério Público de São Paulo e do Pará, da Corregedoria-Geral da Polícia Civil e do Gaeco, revelam um vínculo pessoal e profissional de Layla com a facção. Ex-policial militar no Espírito Santo e advogada criminalista inscrita no Pará, ela teria sido cooptada durante sua atuação como defensora de presos ligados ao PCC, realizando múltiplas visitas a líderes da organização no Norte do país. Seu namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel ou MC Dedel, é apontado como líder do PCC na região, com influência no tráfico de armas e drogas em Roraima. Ele estava em livramento condicional e foi preso junto com ela.
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou em coletiva que, até então, não havia apontamentos contra a delegada, mas a instituição “cortou na própria carne” ao agir rapidamente. “Ela estava em estágio probatório e, em um primeiro momento, não havia nada que a desabonasse”, disse. Autoridades negam indícios de fraude no concurso, mas investigam se o cargo poderia ser usado para favorecer a facção, com acesso a inquéritos e bancos de dados restritos. Há suspeitas de lavagem de dinheiro, como a aquisição de uma padaria em Itaquera com recursos ilícitos via laranja.
A prisão temporária de Layla, por 30 dias prorrogáveis, é por crimes de organização criminosa e lavagem de capitais. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em São Paulo e Marabá, incluindo na Academia de Polícia. O juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, alertou que se comprovada a infiltração do PCC em concursos públicos, o Brasil estaria à beira de um “narcoestado”. O Ministério Público e a Polícia Civil continuam investigando as ligações de Layla com o crime organizado e garantem que estruturas de inteligência coíbam essa contaminação em carreiras públicas.
