Uma resolução aprovada pela Organização das Nações Unidas reacendeu debates históricos e políticos sobre o tráfico de africanos escravizados e suas consequências atuais. O documento estabelece que os Estados-Membros considerem pedidos formais de desculpas e contribuam para um fundo internacional de reparação.
Liderada pela União Africana, a resolução foi apoiada por 123 países, incluindo o Brasil, mas enfrentou oposição dos Estados Unidos, Argentina e Israel. Além disso, 52 países, muitos da União Europeia, se abstiveram. A classificação da escravidão como o crime mais grave contra a humanidade e as medidas concretas de reparação foram pontos de crítica.
Durante a reunião, a União Europeia e os Estados Unidos se opuseram à hierarquização de violações de direitos humanos. Afirmaram que tal classificação diminui o sofrimento de outras vítimas de atrocidades históricas. A resolução da ONU destaca a escala e as consequências duradouras do tráfico de escravos africanos.
A historiadora Martha Abreu, especialista em memória da escravidão, apoia o texto da resolução, destacando o impacto histórico e as consequências do tráfico de escravos. Segundo dados, cerca de 12,5 milhões de africanos foram forçados a embarcar em navios negreiros entre 1517 e 1867.
Jurema Werneck, da Anistia Internacional, reconhece a importância de valorizar as lutas antiescravista e antirracista, destacando a necessidade de reparação e responsabilização. Ela argumenta que todos os crimes contra a humanidade são trágicos, mas a escravidão deve ser destacada pela sua magnitude.
A União Europeia não reconheceu responsabilidade pelo tráfico e escravidão de africanos, apesar de potências europeias terem sido grandes escravistas entre os séculos 16 e 19. Argumentaram que normas internacionais atuais não podem ser aplicadas retroativamente.
Os Estados Unidos criticaram a tentativa de usar recursos modernos para compensar vítimas históricas. Martha Abreu contesta, afirmando que já havia legislações contra o tráfico no século 19, e que a riqueza de muitos países europeus está ligada à exploração do tráfico e escravidão.
A resolução da ONU enfatiza a criação de um sistema de justiça reparatória. Países africanos e caribenhos defendem a estruturação de um fundo internacional para financiar projetos de desenvolvimento. No Brasil, a Câmara dos Deputados deve votar a PEC que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial.
Jurema Werneck destaca que, embora o crime contra a humanidade nunca seja totalmente reparado, a iniciativa de reparação é um gesto político e simbólico importante para a população negra.
