# O Fim de uma Era: Os Orelhões Brasileiros Chegam ao Final
Os últimos 30 mil telefones de uso público, popularmente conhecidos como orelhões, já têm data marcada para a aposentadoria: o final de 2028. A decisão marca o encerramento de mais de cinco décadas de um dos ícones mais reconhecíveis do design brasileiro e da paisagem urbana do país.
Lançados em janeiro de 1972, os orelhões foram criados pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, formada em arquitetura pela Universidade Mackenzie em 1964. O primeiro orelhão foi instalado no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1972, no dia de São Sebastião, padroeiro da cidade, e chegou a São Paulo cinco dias depois, em 25 de janeiro.
O projeto de Silveira surgiu em 1971, quando ela chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB) e recebeu o desafio de criar um protetor para telefones públicos que reunisse funcionalidade, beleza e acústica. Inspirando-se na forma do ovo, que segundo a arquiteta era “a melhor forma acústica”, desenvolveu uma estrutura que seria forte, leve, resistente ao sol e à chuva, barata e com bom desempenho acústico. Os protetores foram batizados pela CTB como Chu I e Chu II, em homenagem à sua criadora.
O sucesso foi imediato. Em março de 1972, apenas dois meses após a inauguração, a CTB registrava um acréscimo de 12% na média diária de chamadas em telefones públicos. A recepção foi tão entusiasta que o renomado poeta Carlos Drummond de Andrade dedicou uma crônica ao novo invento. Em 1973, os primeiros orelhões foram exportados para Moçambique, na África, marcando o início da disseminação internacional do design brasileiro.
Ao longo dos anos, a rede expandiu-se vertiginosamente. Em 1975, chegaram às ruas os orelhões azuis, destinados especificamente a chamadas interurbanas, ampliando a capacidade da rede. A mesma rede que já teve mais de 1,5 milhão de terminais era mantida por concessionárias de telefonia fixa como uma contrapartida obrigatória do serviço.
Nos últimos anos, porém, a tecnologia mudou radicalmente. Em 1992, as fichas telefônicas foram substituídas por cartões telefônicos, modernizando o sistema. Em 1998, quando a espanhola Telefónica adquiriu a Telesp no processo de privatização da Telebras, os orelhões ganharam a cor verde-limão, marcando visualmente essa transição. Mas nenhuma modernização conseguiu frear o declínio provocado pela popularização dos telefones celulares.
Chu Ming Silveira faleceu em 1997, mas seu legado ultrapassou as fronteiras brasileiras. Orelhões ou adaptações de seu projeto foram exportados para diversos países da América Latina, como Peru, Colômbia e Paraguai, além de países africanos como Angola, e até mesmo para a China, terra natal da arquiteta. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ainda há cerca de 38 mil orelhões funcionando no Brasil atualmente. Os aparelhos apenas serão mantidos em cidades onde não há rede de celular disponível, e somente até 2028.
