A Petrobras confirmou que houve um vazamento de fluido de perfuração no poço Morpho, localizado a 175 quilômetros da costa do Amapá, na Foz do Amazonas, identificado no domingo (4 de janeiro). A estatal informou que a perda ocorreu em duas linhas auxiliares que conectam a sonda de perfuração ao poço e que as operações foram imediatamente paralisadas para avaliação e reparo das tubulações.
De acordo com a Petrobras, o volume estimado do vazamento foi de aproximadamente 14,945 metros cúbicos de fluido de perfuração. A empresa destacou que o fluido utilizado atende aos limites de toxicidade permitidos pela legislação, é biodegradável e que não oferece danos ao meio ambiente ou riscos à população. A estatal também informou que não identificou problemas na sonda ou no poço, ambos mantidos em condições consideradas seguras, e que o incidente não compromete a integridade da operação de perfuração.
O fluido de perfuração é uma substância composta por água, argila e aditivos químicos, utilizada para limpar e lubrificar a broca durante a abertura de poços de petróleo e gás, além de estabilizar o poço, controlar a pressão interna e evitar o colapso das paredes. Segundo a CNN Brasil, o vazamento deve paralisar as atividades por um período entre 10 e 15 dias. A Petrobras notificou os órgãos reguladores competentes e adotou todas as medidas de controle necessárias.
Organizações indígenas e ambientalistas manifestaram preocupação com o incidente. O Instituto Arayara alertou que “incidentes desse tipo evidenciam os riscos estruturais da exploração de petróleo em uma das regiões mais sensíveis do planeta, marcada por alta biodiversidade e pela dependência direta de comunidades costeiras e tradicionais”. A organização destacou que as incertezas sobre o fluxo das intensas correntes mais profundas ainda não são totalmente conhecidas, tornando a atividade mais insegura e sujeita a outros acidentes.
A Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp) e o Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO) afirmaram que o acidente confirma os “piores temores” das populações tradicionais. As organizações ressaltaram que “a atividade petrolífera na nossa costa é uma ameaça aos ecossistemas marinhos e costeiros dos quais nossos povos dependem para sua subsistência física e cultural” e que há uma “tragédia anunciada” em curso. Argumentam também que a exploração desrespeita a obrigação de Consulta Prévia, Livre e Informada aos povos cujos territórios e modos de vida estão diretamente ameaçados.
O incidente ocorre em meio a disputas judiciais sobre o licenciamento da exploração na região. Em outubro de 2025, o Ibama concedeu licença para a Petrobras realizar perfurações de pesquisa exploratória no bloco FZA-M-59. Logo após, oito organizações entraram com ação na Justiça Federal do Pará pedindo a anulação do licenciamento, alegando violação de direitos de indígenas e comunidades tradicionais, falhas graves na modelagem ambiental e omissão sobre impactos climáticos. No início de dezembro, o Ministério Público Federal também ingressou com ação solicitando nulidade ou suspensão da licença, indicando falhas estruturais nos estudos ambientais e denunciando a falta de um Plano de Compensação da Atividade Pesqueira, deixando milhares de famílias de pescadores desprotegidas.
A Petrobras defendeu que atendeu a todos os requisitos estabelecidos pelo Ibama e que a exploração de novas fronteiras de petróleo é essencial para assegurar recursos para a transição energética justa. O Ibama afirmou que a licença foi emitida após rigoroso processo técnico e que, desde o indeferimento anterior em 2023, houve aprimoramento do projeto, especialmente na estrutura de resposta à emergência. A Advocacia-Geral da União anunciou que daria tratamento prioritário à ação judicial para garantir a preservação de todos os aspectos ambientais, sociais e econômicos envolvidos no caso.
