No coração de uma profissão que exige resistência, empatia e atualização constante, brilham profissionais como a médica Deise de Boni Monteiro de Carvalho, de 85 anos. Ela é um dos raros exemplos de médicos que, mesmo depois de décadas de jornada, seguem na ativa, liderando equipes, ensinando, cuidando e desafiando estereótipos que insistem em associar a velhice ao repouso e ao afastamento. Em vez de espelhar o receio de muitos de aposentar-se diante do preconceito etário, Deise vive o cotidiano dos hospitais como quem nunca imaginou outro caminho. “Eu trabalho o tempo inteiro e, na medida em que fui ficando mais longeva, eu sou até mais respeitada, mais solicitada. Não sinto preconceito não, nem por ser mulher, nem por ser velha. Ainda não pensei em deixar de trabalhar. Eu não sei fazer outra coisa também”, confessa.
Os 65 anos dedicados à medicina contam muito mais do que a passagem do tempo. Deise de Boni é uma das pioneiras da nefrologia no Brasil, tendo feito parte da equipe que realizou o primeiro transplante renal do Hospital das Clínicas, em São Paulo, em 1965. Desde então, ela coleciona conquistas, como ser uma das fundadoras da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos e, atualmente, chefiar equipes de transplante renal e nefrologia em hospitais como o São Vicente de Paulo e o São Francisco na Providência de Deus, no Rio de Janeiro. Quando muitos de sua geração já se retiraram para uma vida mais tranquila, ela continua coordenando, orientando jovens médicos e participando ativamente da vida hospitalar.
Seu exemplo é também uma lição contra o idadismo — o preconceito contra idosos —, especialmente em ambientes profissionais tradicionalmente competitivos como a medicina. O relato de Deise mostra que, para ela, o envelhecimento não é um obstáculo, mas um motivo de respeito e reconhecimento: ao invés de ser excluída por causa da idade, ela percebe que sua experiência é valorizada, inclusive por colegas de gerações mais novas. O caso da nefrologista chama atenção para a necessidade de repensarmos coletivamente o papel da pessoa idosa na sociedade, principalmente em profissões onde o conhecimento adquirido ao longo de décadas pode representar uma diferença indispensável na formação de futuras gerações.
A trajetória de Deise é, ainda, um estímulo à participação das mulheres na medicina. Ela se formou em 1960, quando apenas 10% de sua turma era feminina, e enfrentou o desnível de oportunidades de seu tempo. Hoje, continua a inspirar médicas em início de carreira, mostrando que a paixão pela profissão pode superar barreiras do gênero e da idade.
Paixão é a palavra que define a permanência de Deise e de profissionais como ela na ativa. Em entrevista, ela é enfática: não larga o trabalho porque realmente gosta do que faz. Sua rotina parece ser feita de histórias, ensinamentos e dedicação que se renovam a cada consultório, a cada sala de cirurgia. A imagem da nefrologista em seu consultório, diante de livros, laudos e fotos, é o retrato de um talento e uma vontade que não aceitam aposentadoria.
O Brasil vive um rápido processo de envelhecimento populacional, sendo, segundo projeções oficiais, um dos países que mais rápido está envelhecendo no mundo. O desafio de acolher e aproveitar o conhecimento de idosos ativos como Deise é urgente. O país precisa valorizar cada vez mais a sabedoria prática, as histórias de vida e o protagonismo de quem, como ela, pode mostrar que envelhecer não é sinônimo de declínio, mas de continuidade, aprendizado e participação — dentro e fora dos hospitais.
