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A plumagem colorida das araras-canindés voltou a enfeitar os céus do Rio de Janeiro após mais de 200 anos de ausência, com a primeira soltura da espécie na capital fluminense, considerada extinta localmente na Mata Atlântica. No início de janeiro, a organização da sociedade civil Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), libertou três fêmeas no Parque Nacional da Tijuca, batizadas de Fernanda, Suely e Fátima.
As aves vieram do Parque Três Pescadores, em Aparecida, no interior de São Paulo. Chegaram ao parque em junho de 2025 e passaram por um rigoroso processo de aclimatação em um recinto dentro da floresta, onde desenvolveram musculatura para voo, aprenderam a se alimentar em plataformas suspensas e se habituaram aos sons e cheiros do ambiente. A bióloga Lara Renzetti, coordenadora de reintrodução do Refauna, destacou que não há mais população natural de araras-canindés no Rio, tornando essa a primeira e única soltura até o momento.
Uma quarta arara, o macho Selton, não pôde ser liberado devido a uma infecção pulmonar não contagiosa. O tratamento medicamental enfraqueceu suas penas de asa, exigindo espera pela muda para novas penas. Selton aguardará um novo grupo de quatro a seis araras, previsto para março, com soltura entre agosto e setembro após quatro a seis meses de aclimatação.
O planejamento do projeto começou em 2018, com ênfase em questões sanitárias desafiadoras para a espécie. Globalmente comum no Cerrado, a arara-canindé (Ara ararauna) desapareceu do litoral da Mata Atlântica fluminense desde o século 16, vítima da caça e perda de habitat. A meta do Refauna é reintroduzir 50 indivíduos em cinco anos, liberando aproximadamente dez anualmente, para aumentar as chances de reprodução e estabelecimento populacional. As araras soltas usam anilhas, microchips e colares para identificação, facilitando o monitoramento pela equipe.
A população pode contribuir via ciência cidadã, enviando relatos e fotos pelo Instagram do Refauna, WhatsApp (21 96974-4752) ou aplicativo gratuito SISS-Geo, desenvolvido pela Fiocruz. Após a soltura, Fernanda foi vista voando livre próximo ao parque. Especialistas do ICMBio enfatizam o papel dos parques urbanos da Tijuca e Pedra Branca como corredores ecológicos ideais, com infraestrutura para ninhos futuros. Recapturas iniciais podem ocorrer para ajustes, dada a inteligência da espécie.
Desde 2010, o Refauna reintroduziu cutias-vermelhas, jabutis-tingas, bugios-ruivos e antas na região, combatendo a defaunação que compromete a regeneração da floresta. Aproximadamente 90% das plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersar sementes. Essa iniciativa transforma o Parque Nacional da Tijuca em laboratório vivo de restauração ecológica, devolvendo vida à floresta que permanecia silenciosa e vazia.
