Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) realizaram um estudo inédito ao decifrar os conjuntos completos de DNA do pirarucu (*Arapaima gigas*) e do filhote (*Brachyplatystoma filamentosum*), duas espécies icônicas da Amazônia ameaçadas pela pesca predatória e pela alta demanda da gastronomia. Essas espécies, nativas do bioma amazônico, compartilham o habitat e a dificuldade de reprodução em cativeiro, o que as torna alvos prioritários para iniciativas de conservação e piscicultura sustentável.
O trabalho, liderado pelo pesquisador Sidney Santos, do Laboratório de Genética Humana e Médica do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA, analisou mais de 100 amostras utilizando tecnologias de sequenciamento genético de última geração. A motivação principal foi frear os impactos da exploração excessiva, impulsionada pelo crescimento da procura por esses peixes em restaurantes e mercados. “A ideia central é, se você de uma forma equilibrada e direcionada conseguir conhecimento suficiente para produzir esses peixes do jeito mais sustentável possível, você pode diminuir a demanda da natureza”, explica Santos.
Com o mapeamento genético completo, agora disponível em um banco público, torna-se possível rastrear a origem dos peixes comercializados, distinguindo exemplares de criação sustentável daqueles capturados ilegalmente no ambiente natural. Isso fortalece a fiscalização contra o comércio irregular e apoia a identificação taxonômica precisa, resolvendo dúvidas sobre adaptações dessas espécies tradicionalmente exploradas por comunidades ribeirinhas.
Entre os avanços práticos, o estudo oferece soluções para superar barreiras reprodutivas. No caso do pirarucu, cuja reprodução natural exige um longo período de convivência entre o casal antes da formação de prole, os dados genômicos auxiliam na indução hormonal de sexos, no desenvolvimento de nutrições adequadas para ambientes artificiais e no melhoramento de rações. Para o filhote, conhecido também como piraíba, o sequenciamento do mitogenoma – com 16.566 pares de bases e conteúdo de GC de 42,21% – revela detalhes sobre sua estrutura genética, incluindo 13 genes codificadores de proteínas, 22 tRNAs e 2 rRNAs, facilitando estudos de diversidade genética e filogeografia.
A secretária nacional de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente enfatiza que esses dados genômicos são essenciais para atualizar listas de espécies ameaçadas e guiar estratégias de restauração de biomas. Apesar da redução nos custos da tecnologia de sequenciamento, os pesquisadores destacam persistentes desafios logísticos na Amazônia, como o acesso a amostras remotas. O registro público dos genomas pavimenta o caminho para pesquisas futuras, promovendo a conservação e o manejo sustentável dessas espécies, aliviando a pressão sobre populações selvagens e impulsionando a economia local por meio de uma piscicultura mais eficiente e ética.
