Petro diz que temeu ser capturado pelos EUA assim como Maduro

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, admitiu ter temido ser alvo de uma operação dos Estados Unidos semelhante à que resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no início de janeiro. Em entrevista ao jornal espanhol El País, ele afirmou que chegou a imaginar que poderia ter o mesmo destino de Maduro e disse acreditar que qualquer chefe de Estado que não se alinhe a determinados interesses corre o risco de ser removido do cargo.

Segundo Petro, esse clima de insegurança foi alimentado por sinais concretos vindos de Washington. O colombiano relatou que, em conversa telefônica recente, Donald Trump lhe disse que estava pensando em “fazer coisas ruins” na Colômbia e deu a entender que uma operação militar estava sendo preparada. De acordo com o presidente, a mensagem que recebeu foi a de que já se discutia uma intervenção no país, repetindo o padrão adotado na ação que levou ao sequestro de Maduro em Caracas e à sua transferência para julgamento em um tribunal federal em Nova York.

Apesar da gravidade do cenário que descreve, Petro avalia que o telefonema com Trump, realizado na quarta-feira (7), contribuiu para reduzir a tensão entre Bogotá e Washington. Ele afirma acreditar que as ameaças foram “congeladas” depois do diálogo, embora admita que pode estar enganado. O presidente norte-americano, em declarações públicas, vinha acusando o líder colombiano de envolvimento com o narcotráfico e chegou a sugerir que uma intervenção militar na Colômbia “soaria bem”, depois de classificar Petro como um “homem doente” e o país como “muito doente” devido à produção de cocaína.

Petro revelou que, apesar do temor de um ataque, não reforçou sua própria segurança nem ordenou mudanças na estrutura de defesa do país. Ele lembrou que a Colômbia não dispõe de sistema de defesa aérea moderno voltado para enfrentar caças como os F-16, já que sua doutrina militar sempre esteve voltada para o combate interno a grupos armados e não para enfrentar forças estrangeiras. A principal proteção de seu governo, afirma, é a mobilização popular.

Nessa linha, o presidente colombiano reforçou que sua resposta às ameaças foi política e social, e não militar. Ele convocou manifestações e resistência popular em defesa da soberania nacional, pedindo que a população se mantivesse vigilante diante de qualquer tentativa de agressão externa. Em discursos e entrevistas, Petro tem repetido que, diante de uma eventual incursão estrangeira, sua verdadeira defesa virá do apoio do povo e da capacidade de organização nas ruas.

A crise aberta com a captura de Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro, também trouxe ao centro do debate o futuro da Venezuela e a correlação de forças na América Latina. Com o presidente venezuelano sob custódia nos Estados Unidos, sua vice, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente o comando do país em meio a forte contestação interna e pressão internacional. Petro afirmou ter conversado com a dirigente venezuelana, a quem chama de amiga, e descreveu um ambiente em que ela é acusada de traição por setores chavistas ao mesmo tempo em que enfrenta cobranças externas por uma redefinição do regime.

Para o líder colombiano, o maior desafio de Delcy Rodríguez é recompor a unidade interna da Venezuela. Ele argumenta que um povo dividido abre espaço para processos de colonização e interferência estrangeira, enquanto a coesão social e política poderia criar condições para uma saída negociada à crise. Na sua visão, somente um acordo entre os próprios venezuelanos poderá evitar que o país permaneça sob tutela externa ou sob risco de novas ações unilaterais de grandes potências.

Embora crítico à operação que removeu Maduro do poder, Petro ressalta que sua posição sobre a Venezuela não é essencialmente oposta à de Washington em um ponto central: a necessidade de uma transição que leve a eleições livres e a alguma forma de governo compartilhado. Ele destaca que essa ideia já foi defendida por autoridades norte-americanas e diz que essa proposta é compatível com o que seu próprio governo propõe para o país vizinho.

A diferença, enfatiza Petro, está no método. Para ele, qualquer transição política na Venezuela não pode ser imposta de fora, seja por meio de sanções econômicas, seja por operações militares ou por mudanças forçadas de regime. O colombiano insiste que a solução precisa nascer do diálogo entre forças políticas venezuelanas, com a comunidade internacional – em especial os Estados Unidos e os países latino-americanos – atuando como facilitadora desse processo, e não como protagonista de intervenções.

Ao mesmo tempo em que tenta desarmar a escalada retórica com Trump, o presidente colombiano procura reposicionar seu país como um ator que defende a soberania regional e a construção de saídas multilaterais para as crises na América Latina. A conversa telefônica com o presidente norte-americano, que ele descreve como tensa, mas necessária, foi para Petro um ponto de inflexão: de um lado, expôs a vulnerabilidade de seu governo diante da ameaça de uso da força por parte de Washington; de outro, abriu uma brecha para a retomada de canais diplomáticos diretos.

Enquanto aguarda para saber se a promessa de um encontro futuro com Trump se concretizará e se as ameaças de intervenção realmente ficarão em suspenso, Petro aposta em duas frentes paralelas. Em casa, busca consolidar uma base social disposta a defender o governo e a institucionalidade colombiana diante de qualquer ingerência externa. No plano regional, tenta articular uma resposta latino-americana que combine defesa da soberania, pressão por eleições livres na Venezuela e recusa a mudanças de regime conduzidas por potências de fora do continente.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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