Prefeitura de São Paulo retoma espaço ocupado pelo Teatro de Contêiner

A prefeitura de São Paulo retomou nesta quinta-feira o terreno no centro da cidade, na Rua dos Gusmões, ocupado há quase dez anos pela Companhia de Teatro Mungunzá, conhecida pelo Teatro de Contêiner. A operação, realizada com o lacre do local pela Guarda Civil Metropolitana, transcorreu sem intercorrências, conforme comunicado oficial do município, que agiu com base na decisão da 5ª Vara da Fazenda Pública, encerrando o prazo de permanência concedido judicialmente ao grupo.

Lucas Breda, um dos gestores do teatro, relatou surpresa com a ação repentina. “Foi uma surpresa total. Estamos desde o dia 26 de dezembro tentando contato com eles, mas não temos resposta”, disse ele à Agência Brasil. Breda afirmou que o grupo já havia concordado em se mudar para outro espaço oferecido pela prefeitura, na Rua Helvétia, 807, também no centro. “Estamos em fase de mudança. Cumprimos com todas as nossas atividades no teatro até o dia 19 de dezembro”, completou, destacando que a companhia prepara planta e projeto logístico para o novo local, mas agora questiona: “Como fazemos a mudança se fomos interditados de entrar?”

Marcos Felipe, outro gestor, reforçou o apelo em vídeo publicado nas redes sociais pela manhã. “O teatro foi lacrado e estamos sem acesso às nossas coisas, à nossa história. Com este vídeo, faço um apelo: nós já aceitamos o terreno oferecido pela prefeitura, na Rua Helvétia. A gente precisa de tempo para tirar tudo daqui de forma organizada”, declarou. Ele cobrou diálogo: “Chamem a gente para conversar, chamem para o diálogo. Nós já aceitamos sair daqui, mas não temos condições financeiras de fazer isso assim de imediato. Não somos intransigentes. Intransigência é a gente chegar no espaço e ele estar lacrado sem um mínimo de comunicação. Nós não merecemos isso.”

A desocupação encerra uma disputa judicial que se arrastava há meses entre o grupo teatral e a administração municipal. O terreno pertence à prefeitura, que planeja utilizá-lo para construir unidades habitacionais populares, uma quadra de esportes e revitalizar o entorno, integrando-o a projetos de requalificação da região central, como a área da Cracolândia, no bairro da Luz. Em agosto do ano passado, a Justiça concedeu liminar inicial para permanência por 180 dias, reduzida depois para 90 dias, prazo que se esgotou. Na segunda-feira anterior, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a liberação da área para o município.

Ao longo de 2025, a prefeitura ofereceu quatro alternativas de terrenos no centro, todos maiores que o atual, incluindo o da Rua Helvétia, além de R$ 100 mil em apoio financeiro para a transição, propostas não aceitas inicialmente pelo grupo devido a cronogramas de espetáculos e eventos financiados pelo próprio município, como a 41ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro. O espaço, ocupado desde 2016, tornou-se referência nacional e internacional por sua inovação arquitetônica, abrigando espetáculos de teatro, música e dança, além de ações culturais.

A mobilização da classe artística marcou o conflito. Atores como Antônio Fagundes, Fernanda Torres, Marieta Severo e Fernanda Montenegro manifestaram apoio à permanência do teatro, com cartas e vídeos criticando a ação municipal e comparando-a a episódios da ditadura militar, quando teatros eram invadidos. Artistas e apoiadores realizaram protestos em frente ao local. Atualmente, os representantes do Mungunzá buscam contato com a Secretaria Municipal de Cultura para negociar acesso e tempo adicional à mudança, enquanto a prefeitura transfere a área à Companhia Metropolitana de Habitação para execução dos projetos sociais.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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