A operação policial realizada no dia 28 de outubro nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, marcou a história recente do estado não apenas pela sua letalidade, mas também por suas repercussões devastadoras junto à comunidade, especialmente entre crianças e adolescentes. A Operação Contenção, considerada a maior nos últimos 15 anos, mobilizou mais de 2,5 mil policiais civis e militares com o objetivo de desarticular o Comando Vermelho, principal facção armada da região. O saldo, no entanto, foi trágico: 121 pessoas mortas, incluindo quatro policiais, e uma lista de vítimas que evidencia o alto índice de letalidade entre jovens — pelo menos um em cada três assassinados era jovem, com até 25 anos. Entre os mortos, dois adolescentes, de 14 e 17 anos, chamam atenção pela gravidade da situação.
Enquanto famílias choram seus mortos e comunidades se mobilizam em protesto, uma outra face do drama emerge: dez adolescentes apreendidos durante a operação, assim como suas famílias, passam a ser tema central da atuação de conselhos tutelares e órgãos de defesa dos direitos humanos. O temor é de que esses jovens, muitos sem histórico criminal, estejam expostos a execuções — prática conhecida como “queima de arquivo” — ou sejam aliciados pelo tráfico assim que retornarem às comunidades. Por isso, o Ministério dos Direitos Humanos, em conjunto com o governo estadual e conselheiros tutelares, discute estratégias urgentes de proteção, incluindo a inclusão desses adolescentes no Programa de Proteção à Criança e Adolescente Ameaçados de Morte (PPCAM).
Os adolescentes apreendidos aguardam, em unidade socioeducativa localizada na Ilha do Governador, a realização de audiências de custódia, previstas para esta semana — momento decisivo em que a Justiça irá avaliar a legalidade da apreensão e definir o futuro desses jovens. De acordo com Lívia Vidal, coordenadora do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, há a possibilidade de que alguns deles, justamente por não terem antecedentes criminais, aguardem julgamento em regime de semiliberdade ou liberdade assistida, em vez do internamento. A prioridade, diz Lívia, é evitar que esses adolescentes voltem para suas casas sem nenhum tipo de acompanhamento ou amparo, o que aumentaria o risco de recrutamento pelo crime ou de se tornarem testemunhas desprotegidas diante de grupos armados.
A preocupação com o impacto da operação nas famílias mais pobres também faz parte do esforço das autoridades: além do acompanhamento rigoroso dos apreendidos, está previsto o suporte a quem perdeu o provedor (morto ou preso), com atendimento médico e psicológico para as crianças diretamente afetadas no dia da ação policial. A proposta, segundo os conselheiros tutelares, é fortalecer a própria rede de proteção, apoiando os profissionais locais para que consigam realizar seu trabalho em condições adversas, diante da escalada da violência.
A pedagoga social Luana Costa, que atua em projetos sociais nos complexos atingidos pela operação, ressalta que o trauma coletivo é profundo: “São famílias inteiras destruídas pelo luto, pelo medo e pela incerteza. Na prática, o efeito colateral dessas operações é gerar mais medo, mais ódio e, no fundo, mais motivos para que adolescentes sejam atraídos pelo tráfico, seja por falta de escolha, seja por vingança”. Esse cenário já era visível nas famílias dos jovens mortos, cujos nomes, idades e fotos foram divulgados publicamente pela Polícia Civil, numa tentativa de justificar a ação policial.
No meio desse turbilhão de violência e dor, técnicos do Ministério dos Direitos Humanos ainda buscam alternativas para garantir não apenas a sobrevivência, mas a ressocialização desses adolescentes, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente. A visão, compartilhada por especialistas, é a de que a ressocialização é mais eficaz no “meio aberto”, ou seja, quando o jovem pode ser fortalecido pela comunidade, pela escola e por projetos sociais, e não necessariamente pelo isolamento social. O desafio, no entanto, parece colossal diante de uma cidade onde a presença do tráfico ainda é majoritária e o medo, generalizado.
O episódio revela, assim, uma encruzilhada: de um lado, o avanço da polícia contra um crime organizado violento e sofisticado; de outro, uma geração de jovens à mercê de escolhas impossíveis, entre risco de vida, vulnerabilidade social e a esperança, frágil, de um caminho melhor. Enquanto autoridades discutem protocolos, famílias e comunidades morrem — literal e simbolicamente — aguardando respostas para além das balas.
