Roda de Samba deste domingo une música e literatura na Rádio Nacional

# Samba e Crônica: Os Irmãos da Literatura e da Música Brasileira

O jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, radicado há décadas em São Paulo, estabelece uma conexão profunda entre duas expressões fundamentais da cultura brasileira: o samba e a crônica. Para ele, não se trata apenas de uma proximidade casual, mas de um verdadeiro parentesco entre esses dois gêneros que compartilham raízes, propósitos e sensibilidade.

“Tanto compositores populares como cronistas de texto são dois bichos apaixonados pela observação da vida, pela observação do cotidiano”, compara Werneck. Essa paixão comum pela observação do ordinário, do cotidiano, do povo e suas histórias forma a base dessa relação que transcende as fronteiras entre música e literatura.

A matéria-prima desses dois “bichos”, segundo o escritor, é a rua, a vida nas suas manifestações mais simples e ao mesmo tempo mais reveladoras. “A crônica, alguém já disse, é um gênero a pé. Eu aplicaria isso também à música popular”, destaca Werneck. Ambos os gêneros possuem a capacidade singular de “apanhar uma aparente insignificância, às vezes, e transformar e revelar o que tem ali de perene, de duradouro”. Essa habilidade de transfigurar o banal em universal é o que torna samba e crônica tão próximos na essência.

A história da cultura brasileira corrobora essa proximidade. O país tem uma longa tradição de figuras que transitam entre esses dois universos: grandes compositores que também são cronistas, como Aldir Blanc, Antonio Maria e Vinicius de Moraes; cronistas que são músicos, como Fernando Sabino; e compositores consagrados que recebem a alcunha de cronistas, entre eles Ary Barroso, Geraldo Pereira, Noel Rosa e Wilson Baptista. Essa fluidez entre os campos demonstra que a distinção entre música e literatura, no contexto brasileiro, é muito mais porosa do que se poderia imaginar.

Werneck é autor de “Viagem no País da Crônica”, obra lançada em 2025 que resenha a produção dos principais cronistas brasileiros: Clarice Lispector, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. Nesse livro, o escritor debruça-se sobre o que chamou de era de ouro da crônica brasileira, explorando como esse gênero moldou a sensibilidade literária do país.

A temática dessa relação entre música e literatura ganhou destaque em programação especial da Rádio Nacional. O programa “Roda de Samba”, que vai ao ar todos os domingos ao meio-dia nas onze emissoras da Rádio Nacional e é posteriormente distribuído na Rede Nacional de Comunicação Pública, dedicou uma edição especial a essa discussão. O programa, iniciado em 2019, já conversou com outros escritores como Alberto Mussa, Manoel Herzog, Paulo Lins e Ruy Castro, além de ter veiculado as últimas entrevistas de Monarco, João Donato e do crítico musical Zuza Homem de Melo.

Esse tipo de abordagem reflete uma compreensão cada vez mais profunda de que as manifestações culturais brasileiras não operam em silos isolados, mas formam um ecossistema integrado onde a música alimenta a literatura, a literatura nutre a música, e ambas expressam a alma do povo brasileiro em suas múltiplas facetas. Samba e crônica, como bem identifica Werneck, são efetivamente irmãos que compartilham não apenas técnica e forma, mas uma visão de mundo fundamentalmente democrática e humanista.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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