Rússia usa míssil hipersônico contra Ucrânia em ataque massivo

Durante um raro avanço nas negociações por um acordo de paz para a guerra na Ucrânia, a Rússia elevou novamente a tensão no campo de batalha ao lançar, pela segunda vez, o míssil hipersônico de médio alcance Oreshnik contra o país vizinho, em um ataque combinado com centenas de drones entre a noite de quinta-feira e a madrugada de sexta-feira. O projétil, que pode atingir até dez vezes a velocidade do som e é capaz de transportar ogivas nucleares, é considerado uma das armas mais avançadas do arsenal russo e simboliza a escalada tecnológica do conflito em pleno esforço diplomático.

Segundo o Ministério da Defesa russo, o novo disparo do Oreshnik foi uma resposta a uma suposta tentativa de ataque com drones ucranianos contra uma das residências do presidente Vladimir Putin no mês passado, versão amplamente divulgada pela imprensa oficial russa. Kiev nega ter realizado essa ofensiva e afirma que o uso do míssil, pela segunda vez desde o fim de 2024, é mais um instrumento de pressão de Moscou sobre as negociações, em um momento em que mediadores internacionais tentam construir um cessar-fogo duradouro.

Os militares russos afirmam que os alvos do ataque foram infraestruturas críticas em território ucraniano, incluindo instalações ligadas à produção de drones e à matriz energética do país. De acordo com esse relato, foram empregados, além do Oreshnik, mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos e armamento terrestre e marítimo de alta precisão e longo alcance, em uma das maiores ofensivas aéreas das últimas semanas. Em comunicado, o Ministério da Defesa da Rússia declarou que “os alvos do ataque foram atingidos”, descrevendo como objetivos uma fábrica de drones supostamente ligada ao ataque contra a residência de Putin e estruturas energéticas estratégicas.

Do lado ucraniano, a narrativa é distinta. O presidente Volodymyr Zelensky confirmou, nas redes sociais, que o país foi atingido por um míssil Oreshnik, além de 22 mísseis de cruzeiro, 13 mísseis balísticos e um enxame de 242 drones utilizados na ofensiva. Segundo ele, os impactos não se limitaram a objetivos militares ou de infraestrutura: prédios residenciais teriam sido atingidos, resultando em pelo menos quatro mortes apenas em Kiev e dezenas de feridos. Autoridades locais relataram cenas de pânico na capital durante a madrugada, com sirenes antiaéreas soando por horas e explosões ecoando em diferentes bairros.

O ataque ocorre em paralelo a um momento delicado das conversas mediadas por potências ocidentais, que tentam construir garantias de segurança para a Ucrânia em um eventual acordo de paz. Kiev insiste que qualquer compromisso que encerre as hostilidades precisa vir acompanhado de mecanismos concretos para impedir novas ofensivas russas, enquanto Moscou procura usar seu poder de fogo para reforçar sua posição à mesa de negociação. O emprego reiterado de uma arma de última geração, com capacidade nuclear, em meio a esse cenário, é interpretado por analistas como um recado político e militar de que a Rússia busca demonstrar que ainda dispõe de instrumentos de pressão significativos, apesar do desgaste prolongado da guerra.

Para Zelensky, o ataque com o Oreshnik e o volume de mísseis e drones disparados evidenciam a urgência de uma resposta internacional mais contundente. Em seu pronunciamento, ele cobrou especificamente os Estados Unidos e demais aliados ocidentais, afirmando que Moscou só leva a sério “sinais claros” vindos dessas potências e que a Rússia precisa “sentir as consequências” sempre que volta a apostar na destruição de infraestrutura e em ações que atingem civis. O presidente ucraniano argumenta que a pressão diplomática e econômica sobre o Kremlin deve avançar na mesma velocidade que as negociações de paz, sob risco de os ataques minarem a confiança da população ucraniana em qualquer futuro acordo.

Enquanto isso, especialistas em defesa acompanham com atenção a evolução do uso do Oreshnik no conflito. Desenvolvido como míssil balístico hipersônico de alcance intermediário, ele foi concebido para superar sistemas antimísseis ao combinar alta velocidade, trajetória complexa e grande alcance, podendo ser equipado com ogivas convencionais ou nucleares. Ainda que, até o momento, não haja indicação de armamento nuclear nesses lançamentos contra a Ucrânia, o simples fato de um vetor com essa capacidade estar em operação em um teatro de guerra na Europa reacende preocupações sobre a erosão das barreiras políticas e psicológicas que cercam o uso de armas de destruição em massa.

O novo ataque com o Oreshnik expõe a contradição central do momento atual da guerra: enquanto diplomatas discutem fórmulas para congelar frentes de batalha, definir garantias de segurança e desenhar um caminho de saída para ambos os lados, o conflito no terreno continua a ser travado com armamentos cada vez mais sofisticados e letais. Para a população ucraniana atingida durante a madrugada, o avanço tecnológico pouco importa diante de sirenes, apagões e escombros. Já para negociadores em capitais ocidentais e em Moscou, cada míssil lançado se converte em um novo elemento de cálculo político, capaz de aproximar ou afastar, de forma decisiva, a perspectiva de um fim para a guerra.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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