Tradição e fé impulsionam busca por banhos e ervas no fim de ano

Aroma e conhecimento popular se mesclam em banquinhas de ervas espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro, em feiras livres ou nas esquinas, da zona norte à zona sul. Nesses pontos de venda, saberes passados de geração em geração receitam chás, xaropes, escalda-pés, banhos e outras preparações que, mesmo sem comprovação medicinal para curar doenças, promovem o bem-estar e atraem maior procura no fim de ano por folhas usadas em banhos energéticos e rituais.

Na Rua da Carioca, no Centro, o erveiro José Adaílton de Souza Ferreira borrifa água em suas plantas a intervalos regulares para protegê-las do calor intenso. Empilhadas em um carrinho de mão estilo “burro sem rabo”, destacam-se ramos de macassá, levante, manjericão, arruda, alfazema, alecrim e sálvia, as mais procuradas para banhos energizantes ou de “descarrego”, contra inveja e olho grande. “Tem tanta gente que chega carregado aqui, toma um banho de abre-caminho, desata nó, vence demanda, e a pessoa melhora muito”, relata o vendedor, que transmite instruções simples: “Cozinhar ou esfregar, um dos dois, e depois jogar da cabeça aos pés”.

A tradição das ervas no Rio de Janeiro é alimentada por feiras livres cadastradas pela prefeitura, com pelo menos 33 delas concentradas nas zonas Norte e Sul, onde erveiros comercializam mais de cem espécies medicinais e ritualísticas. Estudos identificam 106 plantas vendidas nesses locais, colhidas muitas vezes da Mata Atlântica ou cultivadas, usadas em chás para problemas como inflamações, catarro, depressão e quebranto, além de banhos para fins espirituais. A demanda explode no fim de ano, impulsionada por religiões indígenas e de matriz africana, como o candomblé, onde as folhas, chamadas de ewés, carregam o axé, a força vital da natureza.

Mãe Nilce de Iansã, referência no terreiro Ilê Omolu Oxum, na Baixada Fluminense, reforça que “sem folha não tem orixá, porque o orixá é a natureza”. As plantas servem não só para práticas religiosas e terapêuticas, mas também alimentares, com cada espécie indicada para propósitos específicos. A ciência corrobora benefícios indiretos: práticas rituais e o uso de ervas podem melhorar a saúde mental e o bem-estar, como explica a doutora em biologia vegetal Aline Savredra, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Os erveiros, com anos de experiência, atuam como guardiões desse conhecimento empírico, oferecendo alternativas acessíveis à medicina convencional em um contexto de preços elevados de remédios industrializados. A presença constante dessas banquinhas nas feiras reflete a força das religiões afro-brasileiras, a preferência por curas naturais e a sabedoria caseira, preenchendo um espaço real no mercado de saúde da população carioca.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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