“Tragédia anunciada”, diz mãe de vítimas sobre barragem de Brumadinho

Sentadas no chão da Avenida Paulista, em São Paulo, crianças amassam argila e moldam pequenos vasinhos para abrigar sementes e mudas que prometem germinar e dar frutos. O gesto simbólico marca os sete anos do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), uma das maiores tragédias socioambientais do Brasil, que ceifou 272 vidas em 25 de janeiro de 2019.

O ato, organizado pelo Instituto Camila e Luiz Taliberti, ocupa a esquina com a Rua Augusta a partir das 10h, reunindo famílias, ativistas e cidadãos em uma programação que mescla memória, cultura e cobrança por justiça. Crianças participam de oficinas de plantio e pintura com pigmentos naturais, enquanto o público geral acessa uma tenda expositiva com obras de arte que retratam os impactos da mineração e a luta por reparação. Às 12h28, horário exato do desastre, uma sirene ecoa pela avenida, simbolizando o alarme que nunca soou na época e reavivando a dor das vítimas, entre elas Camila e Luiz Taliberti, filhos de Helena Taliberti, fundadora do instituto.

Helena, que perdeu os dois filhos no lamaçal de rejeitos, discursa com veemência: o evento visa alertar para o risco de novas tragédias e impedir que a memória se apague. “Brumadinho não é só uma tragédia em Minas Gerais, isso diz respeito a todos nós”, afirma ela, enfatizando a necessidade de uma sociedade que não normalize crimes socioambientais. O Pedal pela Vida, com concentração às 12h e saída às 13h, reúne ciclistas em um manifesto sobre duas rodas por justiça ambiental, mobilidade sustentável e responsabilização das empresas.

A catástrofe liberou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, soterrando trabalhadores, moradores e turistas, devastando comunidades e contaminando o rio Paraopeba por centenas de quilômetros. A lama provocou mortandade de peixes, envenenamento por metais pesados e restrições ao uso da água para consumo, irrigação e pesca, com efeitos ecológicos que persistem. Apesar de acordos bilionários de reparação com o poder público e ações judiciais contra a Vale e a certificadora TÜV SÜD nas esferas criminal, cível e ambiental, familiares denunciam impunidade e falta de responsabilização efetiva.

A programação do Mês da Memória antecede o ato com a peça de teatro “Ganga”, apresentada nos dias 23 e 24 de janeiro, seguida de debate com o diretor, apoiada pela Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem em Brumadinho (AVABRUM). Apresentações culturais, como o Forró das Minas, e um abaixo-assinado com cerca de 130 mil assinaturas circulam no evento, reforçando a mobilização cidadã. Em Brumadinho e outras regiões, atingidos protestam paralelamente contra atrasos na reparação e ausência de diálogo, mantendo viva a exigência por transparência e mudanças no modelo de mineração brasileiro.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)