# O multilateralismo em xeque: Lula critica proposta de “nova ONU” de Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou suas críticas à política internacional durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Salvador, denunciando o enfraquecimento sistemático do multilateralismo em favor do unilateralismo. No discurso, Lula afirmou que a Carta da ONU está sendo rasgada e alertou sobre a prevalência da lei do mais forte nas relações internacionais contemporâneas.
O foco principal das críticas presidenciais recaiu sobre a iniciativa de Donald Trump de criar um Conselho da Paz, anunciado formalmente na quinta-feira em Davos, na Suíça. Segundo Lula, Trump propõe criar uma nova ONU em que ele sozinho é o dono, em contraste com a reforma estrutural que o Brasil reivindica desde 2003. O presidente argumentou que, em vez de corrigir a ONU através da inclusão de novos países no Conselho de Segurança — como Brasil, México e nações africanas —, Trump busca estabelecer uma estrutura paralela sob seu controle exclusivo.
A estrutura do Conselho da Paz, conforme revelado em seus documentos constitutivos, concentra poder significativo nas mãos do presidente americano. Trump será seu primeiro presidente e detentor da autoridade exclusiva para convidar outros chefes de Estado, com capacidade de revogar participações salvo por veto de dois terços dos membros. Além disso, a iniciativa exige contribuições voluntárias de US$ 1 bilhão por membro.
Lula respondeu à situação através de uma estratégia diplomática ativa, telefonando para líderes mundiais para articular alternativas. O presidente conversou com os presidentes da China e México, além de outras lideranças, buscando encontrar uma forma de defender o multilateralismo e impedir que ele seja jogado ao chão. A posição brasileira surge em meio a aceitações de alguns países, como Israel, Argentina e Egito, enquanto França, Noruega e Suécia rejeitaram a proposta. Brasil, Rússia e Espanha continuam analisando a iniciativa.
O presidente reafirmou a necessidade de uma reforma profunda das instituições internacionais, argumentando que a ONU, com sua Carta não reformada desde sua criação há 80 anos, tornou-se cada vez mais vazia e paralisada. Brasil propõe transformações estruturais que incluem revitalizar o papel da Assembleia Geral em questões de paz e segurança, reformar o Conselho de Segurança para adequá-lo à realidade contemporânea e fortalecer a representação de países emergentes e africanos.
Em seu discurso, Lula ressaltou que o Brasil mantém relações autônomas com múltiplos atores internacionais — EUA, Cuba, China e Rússia —, sem preferências predeterminadas, mas recusando categoricamente qualquer cenário que represente um retorno ao status de colônia. O presidente defendeu fazer política na paz, no diálogo através do poder do convencimento, com argumento e com narrativas, posicionando-se contra imposições de qualquer potência.
O encontro do MST também produziu uma carta que reafirma os princípios anti-imperialistas do movimento, criticando explicitamente tentativas de impedir o avanço do multilateralismo e citando a recente invasão da Venezuela como exemplo da violação de soberania. O documento, entregue a Lula, alerta que ações como essa servem de pano de fundo para o saque de recursos naturais como petróleo, minérios e terras raras.
