Últimos corpos de pessoas assassinadas em operação no Rio deixam o IML

Na madrugada de terça-feira, 28 de outubro, o governo do Estado do Rio de Janeiro lançou a chamada Operação Contenção, descrita como uma megaoperação policial para conter o avanço do Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio. O objetivo declarado era desarticular a facção, apresentada como o principal centro de decisão do grupo em nível nacional, além de dar cumprimento a cerca de 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão. Mais de 2.500 agentes foram mobilizados, resultando em confrontos intensos, apreensão de mais de uma tonelada de drogas, cerca de 118 armas – 93 delas fuzis – e, ao final, 121 mortos. O número de vítimas torna a ação a operação policial mais letal da história do Brasil, superando até mesmo o Massacre do Carandiru.

Apesar da retórica oficial de sucesso, o saldo imediato é de dor e perplexidade para as famílias das vítimas. Nos últimos dias, dezenas de pessoas percorreram corredores frios do Instituto Médico Legal, tentando identificar e reconhecer filhos, primos, netos. Até o final da sexta-feira, apenas oito corpos ainda aguardavam reconhecimento, segundo a Polícia Civil. Entre os identificados, 99 tinham chegado ao IML; destes, 78 possuíam histórico criminal relevante, mas apenas 42 estavam com mandado pendente de prisão. Eram homens e jovens, muitos deles oriundos de outros estados, como Pará, Bahia, Amazonas, Ceará, Paraíba e Espírito Santo, revelando o perfil nacional da facção naquele território.

Karine Beatriz, grávida de poucos meses, só encontrou o corpo do marido, Wagner Nunes Santana, após três dias de busca na lama e na mata. Wagner foi retirado de um lago na Serra da Misericórdia, com um tiro na testa. “Após três dias de buscas consegui localizar o corpo, mas alívio eu só vou ter com respostas para as perguntas que não vão calar: de onde vem pena de morte, se existe presídio, presídio é apenas enfeite? Até quando vai isso?”, questiona Karine, entre lágrimas. Ela denuncia que, independentemente do envolvimento do marido com o crime, Wagner era pai de família, responsável pelo sustento e cuidados com os filhos. “Ele era trabalhador, era família, semana passada, estava ajudando a erguer uma casa na comunidade, ajudou a fazer o ‘cabelo maluco’ da minha filha”, relata. Segundo ela, muitas famílias questionam se houve execuções sumárias, já que até mesmo quem se entregou foi atingido. Como tantos outros, Wagner foi enterrado em caixão fechado.

Na comunidade, o clima é de luto coletivo. Moradores contam que nunca viram nada igual: corpos estendidos no meio da rua, famílias escondidas dentro de casa, crianças traumatizadas, comércios fechados, transporte público interditado e ônibus queimados. Para especialistas, o efeito dessas operações é como uma “bomba invisível” para a saúde da população. Problemas como diabetes, hipertensão, distúrbios emocionais, mentais, insônia, AVCs e até complicações de visão se agravam diante do estresse crônico.

O governo do estado insiste na retórica do combate ao crime organizado. Cláudio Castro, governador do Rio, defendeu a ação policial e afirmou que “todos perigosos e com ficha criminal”. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, apresentou dados sobre o fluxo de caixa do tráfico nos complexos operados pelo Comando Vermelho, de cerca de 10 toneladas de drogas por mês, além de destacar o papel dos territórios como centros de treinamento militar para membros da facção, que depois retornavam a seus estados para disseminar o padrão criminoso. O secretário, entretanto, reconheceu que a droga já não é a principal fonte de receita do crime, que hoje se sustenta também na exploração de serviços, taxas, gás, energia, água e construção irregular.

O que fica patente, porém, é a incapacidade do Estado, ao menos até o momento, de apresentar respostas para a crise de segurança pública. Das lideranças mais procuradas, nenhuma foi presa. O controle do território não foi retomado. E, enquanto parentes choram e enterram seus mortos, as perguntas seguem: até quando a sociedade carioca vai conviver com a dor, com o medo, com a ausência de alternativas reais para o fim do ciclo de violência? Para as mulheres como Karine e tantas outras, resta o vazio de quem perdeu um companheiro e, com ele, a esperança de dias melhores.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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