A aprovação, por ampla maioria dos países da União Europeia, do acordo de livre-comércio com o Mercosul encerra um ciclo de mais de duas décadas de negociações e reposiciona as relações econômicas entre os dois lados do Atlântico. A sinalização positiva do Conselho do bloco europeu autoriza a Comissão Europeia a avançar para a assinatura formal do tratado, que envolverá Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e é apontado como um dos maiores acordos comerciais do mundo em volume de mercado e população atendida.
Pouco após o resultado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou a decisão como histórica e afirmou que a Europa está enviando um “sinal forte” ao optar por aprofundar laços comerciais com a América do Sul em um cenário global marcado pela instrumentalização do comércio e das dependências econômicas. Segundo ela, o pacto integra a estratégia europeia de traçar um curso próprio e se apresentar como parceira confiável, ao mesmo tempo em que busca criar crescimento, empregos e proteger interesses de consumidores e empresas europeias.
Com o aval dos Estados-membros, Ursula está autorizada a viajar ao Paraguai já na próxima semana para a cerimônia de ratificação com os países do Mercosul. O país hospeda o evento na condição de presidente pro tempore do bloco regional, função assumida em dezembro de 2025. A assinatura, porém, não encerra o trâmite: para entrar em vigor, o acordo ainda precisará ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos dos países sul-americanos, em etapas que podem prolongar o debate político sobre os termos do tratado.
A votação no Conselho expôs divisões internas da União Europeia, mas confirmou a formação da maioria qualificada exigida pelas regras do bloco. Para ser aprovado, o texto precisava do apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando juntos 65% da população total da União. França, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria votaram contra, expressando sobretudo preocupações com o impacto sobre o setor agrícola europeu, enquanto a maioria dos governos avaliou que as salvaguardas negociadas e as oportunidades comerciais justificam o avanço.
No Brasil e nos demais países do Mercosul, a decisão repercutiu como vitória diplomática e econômica. Autoridades e representantes do setor privado destacaram o potencial de abertura de um mercado estimado em cerca de 700 milhões de habitantes e produto interno bruto próximo de 22 trilhões de dólares, patamar que coloca o novo espaço de livre comércio atrás apenas da economia dos Estados Unidos e à frente da China em termos de riqueza combinada. Órgãos de promoção comercial projetam que as exportações brasileiras para a União Europeia possam crescer em torno de 7 bilhões de dólares com a implementação das novas regras.
À frente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, Jorge Viana ressaltou a composição qualificada da pauta brasileira para o mercado europeu, lembrando que mais de um terço das vendas externas do país ao bloco é formado por produtos da indústria de processamento, e não apenas por commodities agrícolas. Segundo ele, esse perfil aumenta as chances de ganhos em valor agregado e de inserção competitiva de setores industriais estratégicos ao longo da vigência do acordo.
No desenho do tratado, estão previstas reduções imediatas ou gradativas de tarifas de importação e exportação, com foco em cadeias produtivas consideradas sensíveis e de alto valor tecnológico. Máquinas e equipamentos de transporte, como motores e geradores para energia elétrica, autopeças de motores de pistão e aeronaves, deverão ter cortes tarifários mais rápidos, abrindo espaço para empresas brasileiras ampliarem sua presença em nichos de maior complexidade tecnológica. Áreas como couro e peles, pedras de cantaria, facas e lâminas e determinados produtos químicos também foram apontadas como beneficiárias de condições mais favoráveis de acesso ao mercado europeu.
Em paralelo à liberalização de bens industriais, o texto prevê a redução gradual, até a eliminação, de tarifas incidentes sobre diversas commodities agrícolas, em muitos casos sujeitas a cotas de volume. O modelo tenta acomodar as demandas de competitividade dos exportadores do Mercosul com as pressões internas de agricultores europeus, especialmente em países que temem perda de espaço para produtos sul-americanos, como carnes e grãos. Para esses segmentos, o acordo inclui mecanismos de salvaguarda que permitem à União Europeia reagir a eventuais desequilíbrios de mercado, acionando travas emergenciais em caso de desestabilização de preços.
Do ponto de vista político, a aprovação foi interpretada em Brasília como resultado de uma combinação de negociação técnica prolongada e reaproximação diplomática com parceiros europeus. Ursula von der Leyen fez questão de ressaltar a “forte liderança e boa cooperação” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o período em que o Brasil exerceu a presidência do Mercosul, entre julho e dezembro de 2025. O gesto foi lido por autoridades brasileiras como reconhecimento ao esforço do governo em destravar impasses, sobretudo na área ambiental, e em buscar convergência com as exigências europeias de padrões de produção e sustentabilidade.
A decisão europeia também é apresentada por diplomatas como parte de um rearranjo mais amplo das cadeias globais de valor, em meio à crescente rivalidade entre grandes potências e à preocupação com a segurança de suprimentos. Ao selar um entendimento com o Mercosul, a União Europeia procura reduzir dependências concentradas em poucos fornecedores e diversificar suas fontes de alimentos, matérias-primas e insumos industriais. Já os países sul-americanos passam a contar com uma vitrine institucionalizada para ampliar sua presença em um mercado de alta renda, com regras claras e previsibilidade regulatória.
Apesar do clima de comemoração entre governos e parte do empresariado, o acordo ainda enfrenta resistências e deverá alimentar debates internos tanto na Europa quanto na América do Sul. Agricultores de países como França e Irlanda alegam risco de concorrência desleal, apoiando-se em diferenças de custos de produção e em dúvidas quanto à equivalência de normas ambientais e sanitárias. Organizações da sociedade civil dos dois lados acompanham com atenção os dispositivos de proteção ambiental, direitos trabalhistas e mecanismos de solução de controvérsias incluídos no texto.
Com a aprovação política do Conselho europeu, o eixo das decisões se desloca agora para o Parlamento Europeu e para os congressos nacionais. A etapa seguinte, de ratificação legislativa, será decisiva para transformar em realidade o que, por ora, é um compromisso alcançado após anos de negociações intermitentes, mudanças de governo e sucessivas revisões de proposta. Enquanto isso, capitais sul-americanas e europeias já se movem para ajustar estratégias de comércio exterior, investimento e regulação, na expectativa de ocupar espaços e mitigar perdas em um novo cenário de integração entre Mercosul e União Europeia.
