A Universidade de São Paulo (USP) anunciou o desenvolvimento de uma bateria funcional de nióbio, recarregável e capaz de atingir 3 volts, operando de forma estável em ambientes reais, fora das condições ideais de laboratório, e já avançando para testes industriais[1][3][5].
O projeto teve início há dez anos, liderado pelo professor Frank Crespilho, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC/USP), que também comanda o Grupo de Bioeletroquímica e Interfaces da USP e é pesquisador do Instituto Nacional de Eletrônica Orgânica e Sustentabilidade (INCT), sediado no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP)[1][2][3][4][5]. Crespilho superou o maior desafio dessa tecnologia: a degradação do nióbio em ambientes eletroquímicos convencionais, especialmente na presença de água e oxigênio[1][3]. Inspirado em sistemas biológicos, como enzimas e metaloproteínas, que mantêm metais reativos estáveis em ambientes químicos controlados, o pesquisador criou uma “caixa de proteção inteligente” chamada NB-RAM (Niobium Redox Active Medium)[1][3][4][5]. Essa estrutura permite que o nióbio alterne entre estados eletrônicos de forma reversível, sem degradação, simulando mecanismos da natureza[1][3][4].
Grande parte do sucesso veio do trabalho da pesquisadora Luana Italiano, da USP, que passou dois anos refinando o sistema com dezenas de versões experimentais, ajustando o ambiente químico e os mecanismos de proteção[1][3][5]. “Não bastava fazer a bateria funcionar uma única vez. Nosso foco foi garantir estabilidade, repetibilidade e controle fino dos parâmetros”, explica ela[3]. O equilíbrio foi crucial: proteger demais impede a entrega de energia, enquanto proteger de menos causa degradação[3]. Como resultado, a bateria opera não só em laboratório, mas em formatos industriais reais, como células tipo coin (moeda) e pouch (laminadas flexíveis), testadas em parceria com o pesquisador Hudson Zanin, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)[3][4][6]. Nessas configurações, o dispositivo suportou múltiplos ciclos de carga e descarga, comprovando sua viabilidade[3][4][6].
A tecnologia, batizada de N-MER (Niobium Multi-stage Electronic Redox), alcançou níveis intermediários de maturidade tecnológica (TRL-4) e já teve sua patente depositada pela USP[3][4]. Os 3 volts atingidos colocam-na na faixa de tensão de baterias comerciais atuais[3][4][5][6]. O Brasil, detentor das maiores reservas mundiais de nióbio, ganha um ativo estratégico ao transformar esse recurso mineral em inovação proprietária[1][2].
Crespilho destaca o potencial nacional: “A bateria de nióbio desenvolvida na USP mostra que o Brasil não precisa apenas exportar recursos, mas pode liderar tecnologias, desde que a ciência seja tratada como prioridade nacional”[3][4][5]. Para a fase final, ele defende a criação de um centro multimodal de pesquisa e inovação, reunindo governos estadual e federal, universidades e startups[3][5]. O avanço já atrai interesse internacional, incluindo de empresas chinesas do setor de baterias, mas o pesquisador defende que o desenvolvimento permaneça no país, sob liderança paulista[2][4].
