Os povos e comunidades tradicionais do Cerrado, reconhecidos por ocuparem o bioma de forma sustentável com práticas agrícolas modestas, criação de gado “solto” na mata e extrativismo, enfrentam severos conflitos fundiários decorrentes da expansão da fronteira agrícola no Brasil. Esse avanço do agronegócio, especialmente no Matopiba (região composta por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), tem provocado a pressão pela redução das terras dessas comunidades e a invasão por grupos que promovem a grilagem, com a intenção de converter os espaços para a produção de soja em larga escala.
Na região dos Gerais de Balsas, no sul do Maranhão, epicentro do agronegócio nacional, mais de 20 famílias de posseiros vivem sob ameaça. Eles são forçados a aceitar acordos para reduzir suas áreas de trabalho a 50 hectares, sob ameaça de expulsão. Os posseiros acreditam que os responsáveis por essa pressão são grileiros interessados na exploração das terras para monoculturas. A situação gera grande apreensão, com moradores coagidos e sem acesso facilitado à Justiça para defender seus direitos. Osmar Paulo da Silva Santos, agricultor familiar da região, relatou que a pressão tem tirado sua tranquilidade e o faz considerar abandonar suas terras, que sustentam sua família há gerações.
O cenário no Cerrado mostra porções do bioma ainda preservadas, como as nascentes do Rio Balsas, mas cercadas por grandes áreas de monocultura, o que agrava a tensão fundiária e ambiental. O desmatamento acelerado — em sua maioria ilegal, concentrado nas mãos de poucos ruralistas — tem impacto direto na biodiversidade e nos recursos hídricos, afetando o clima e a sobrevivência das comunidades tradicionais, quilombolas e povos indígenas que dependem do Cerrado para seu modo de vida.
Organizações reconhecem que o Cerrado abriga mais de 200 terras indígenas e dezenas de comunidades quilombolas que preservam saberes ancestrais e modos agrícolas tradicionais, como os Kalungas na Chapada dos Veadeiros. No entanto, a dificuldade para a regularização fundiária dessas áreas mantém essas populações vulneráveis, em meio a políticas públicas ainda insuficientes para garantir seus direitos territoriais e a proteção ambiental.
No Maranhão, o Governo estadual tem buscado mitigar os conflitos por meio da regularização fundiária, com o programa Paz no Campo, que entregou milhares de títulos de propriedade e combateu a grilagem, retomando centenas de milhares de hectares para o patrimônio público. Mesmo assim, o acesso desigual à Justiça e a demora processual continuam a agravar a crise de conflitos no campo.
A intensificação do agronegócio no Cerrado, que responde por grande parte da produção nacional de commodities como soja, milho e algodão, é acompanhada pelo aumento das queimadas, uso intensivo de agrotóxicos que contaminam solo e água, e pela redução da vegetação nativa, que hoje cobre menos da metade do bioma. Esse cenário resulta não apenas em perdas ambientais, mas também em doenças, expulsão e acúmulo de sofrimento para as populações tradicionais, que resistem em defesa de suas terras, cultura e modos de vida.
A luta das comunidades tradicionais do Cerrado é, portanto, uma batalha contra a grilagem, o desmatamento e a expansão descontrolada do agronegócio, tentando preservar o bioma, seus recursos hídricos e a diversidade cultural que nele habita. Essa resistência evidencia a necessidade urgente de políticas que conciliem desenvolvimento com justiça socioambiental e a proteção dos direitos territoriais desses povos.
