EUA vão retirar tarifas de alguns produtos de quatro países

# Tarifas dos EUA: Entre protecionismo e necessidade política

A estratégia tarifária agressiva do governo Trump, iniciada em 2025, enfrenta uma inflexão significativa. O que começou como um projeto ambicioso de protecionismo econômico e reequilíbrio das relações comerciais globais revela-se cada vez mais insustentável diante de suas consequências inflacionárias e do desgaste político que provoca.

A primeira grande onda de medidas ocorreu em maio de 2025, quando os EUA eliminaram a isenção de de minimis para produtos chineses, submetendo todas as remessas de bens de origem chinesa a direitos e tarifas, independentemente do valor. Simultaneamente, Trump pausou as tarifas específicas por país e implementou uma tarifa universal de 10% sobre importações de praticamente todos os países, com exceção da China, Hong Kong e Macau. Essas medidas representaram uma ruptura significativa com as práticas comerciais anteriores e impactaram profundamente empresas de comércio eletrônico transfronteiriço que dependiam de importações de baixo custo.

## Os impactos globais da guerra tarifária

As consequências das tarifas americanas atravessaram fronteiras e setores. O Brasil, particularmente afetado, viu suas exportações para os EUA caírem 25% nos três primeiros meses após a implementação de tarifas de 50% sobre diversos produtos brasileiros. Entre agosto e outubro de 2025, o país exportou apenas US$ 7,6 bilhões aos EUA, contra US$ 10,2 bilhões no mesmo período do ano anterior. Produtos como açúcar e melaço sofreram quedas de 78,7%, tabaco caiu 70,6% e carne bovina recuou 53,6%.

Porém, a dinâmica comercial revelou uma resiliência surpreendente. O Brasil rapidamente reorientou suas exportações para mercados alternativos, especialmente asiáticos. As vendas de carne bovina para a China quase dobraram, passando de US$ 1,79 bilhão para US$ 2,97 bilhão no período. Café não torrado para a China teve um salto de 335%, atingindo US$ 125 milhões. O México também emergiu como importante destino para carne bovina brasileira, com alta de 174% nas vendas nos três meses.

A despeito das tarifas, estudos mostram que os impactos nos preços internos brasileiros de alimentos foram menores que o esperado. O grupo de alimentos e bebidas do Índice Geral de Preços ao Consumidor registrou queda de 1,17% no acumulado de quatro meses. A explicação reside na capacidade brasileira de encontrar mercados substitutos rapidamente, evitando que o excedente de produção desabasse sobre o mercado interno. Essa diversificação foi facilitada pela desvalorização do real, tornando produtos brasileiros mais competitivos internacionalmente.

## A virada política: reconhecimento de fracasso

A mudança de rumo do governo Trump começou a ficar evidente em meados de 2025. O Fundo Monetário Internacional alertou que tarifas representavam riscos para inflação e que a economia dos EUA mostrava sinais de pressão. A preocupação com preços altos de alimentos ressurgiu como questão central.

Em outubro de 2025, Trump e Xi Jinping selaram um acordo comercial histórico em Busan, Coreia do Sul. Os Estados Unidos reduziram tarifas sobre produtos chineses de 57% para 47%, enquanto a China suspendeu tarifas adicionais de 24% sobre produtos americanos e suspendeu tarifas de até 15% sobre soja e outros produtos agrícolas. Em troca, Pequim comprometeu-se a retomar compras de soja americana, manter o fluxo de exportação de terras raras e combater o comércio ilícito de fentanil. Ambos os países implementaram essas reduções tarifárias em 10 de novembro.

Mas a verdadeira confissão de fracasso veio após as eleições municipais e estaduais de novembro de 2025, quando candidatos republicanos sofreram derrotas significativas em Nova Jersey, Nova York e Virgínia. Impulsionadas por preocupações com o custo de vida, essas perdas eleitorais forçaram a Casa Branca a repensar sua estratégia tarifária.

## A retirada estratégica sobre alimentos

Em resposta direta às pressões políticas e eleitorais, o governo Trump anunciou acordos-quadro com Argentina, Equador, Guatemala e El Salvador que removem tarifas sobre alimentos e outras importações. Esses acordos, semelhantes aos negociados com países asiáticos em outubro, mantêm tarifas de 10% sobre a maioria dos produtos desses três primeiros países e 15% para o Equador, mas eliminam direitos sobre itens como banana e café, produtos não cultivados, extraídos ou produzidos nos Estados Unidos.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou que o governo planejava anúncios substanciais que levariam à redução de preços de café, bananas e outras frutas como parte de um esforço para reduzir o custo de vida dos norte-americanos. Os acordos também incluem compromissos de não cobrar impostos sobre serviços digitais de empresas americanas e removem tarifas sobre produtos agrícolas e industriais dos EUA, abrindo mercados estrangeiros de formas que anteriormente não estavam disponíveis.

## O paradoxo do protecionismo

O que emerge dessa sequência de eventos é um paradoxo fundamental: uma administração que ergueu barreiras comerciais como dogma ideológico agora se vê obrigada a derrubá-las parcialmente para evitar descontentamento popular. A promessa original era fortalecer a indústria nacional e reequilibrar relações comerciais, mas o resultado prático foi transferir custos para consumidores, inflacionando justamente os itens mais sensíveis do orçamento familiar.

Essa mudança de curso não reflete principalmente ideologia, mas pragmatismo político puro. O governo reconhece que a guerra comercial criou perdedores concretos em casa e que as derrotas eleitorais demonstram um limite à tolerância popular por inflação de alimentos. A redução seletiva de tarifas sobre produtos alimentares representa uma vitória da necessidade política sobre a estratégia econômica mais ampla.

A ironia histórica é cortante: o mesmo governo que promoveu nacionalismo comercial agressivo como solução para desequilíbrios econômicos agora admite, implicitamente, que essa abordagem tem um preço real e imediato na mesa de jantar dos americanos. As negociações comerciais contínuas com diversos países sugerem que essa retirada estratégica pode se expandir antes do final de 2025, marcando uma capitulação gradual, embora relutante, da abordagem protecionista inicial.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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