Ao encerrar Cúpula dos Povos, Cacique Raoni pede que luta continue

## Cúpula dos Povos encerra na COP30 com apelo de Raoni pela continuidade da luta climática

A Cúpula dos Povos, evento paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), encerrou neste domingo (16) em Belém com um chamado à mobilização contínua. O cacique Raoni Metuktire, aos 93 anos, subiu ao microfone para reforçar mensagens que vem repetindo há décadas sobre a destruição ambiental e a necessidade de defender a vida no planeta.

“Há muito tempo, eu vinha alertando sobre o problema que, hoje, nós estamos passando, de mudanças climáticas, de guerras”, disse Raoni em seu discurso de encerramento. O líder indígena do povo Kayapó ressaltou a urgência de manter a luta contra aqueles que buscam destruir a Terra e seus ecossistemas. “Mais uma vez, peço a todos que possamos dar continuidade a essa missão de poder defender a vida da Terra, do planeta. Eu quero que tenhamos essa continuidade de luta, para que possamos lutar contra aqueles que querem o mal, que querem destruir a nossa terra”, completou.

Durante seu discurso, Raoni também criticou duramente os conflitos e guerras ao redor do mundo, reiterando seu apelo por respeito e paz. “Há muito tempo, eu venho falando para que possamos ter respeito um com o outro e possamos viver em paz nessa terra”, conclamou o cacique, evidenciando sua preocupação abrangente que vai além das questões ambientais.

A Cúpula dos Povos, que iniciou na quarta-feira (12), funcionou como um espaço de resistência e mobilização popular paralelo às negociações oficiais da COP30. O evento reuniu milhares de ativistas, povos indígenas, movimentos sociais, comunidades tradicionais e trabalhadores em torno de demandas por justiça climática e ação governamental mais robusta. As organizações e movimentos participantes criticaram severamente os países e tomadores de decisão por se omitirem ou apresentarem soluções “absolutamente ineficientes” no enfrentamento da crise climática, colocando em risco a meta de 1,5°C do Acordo de Paris.

A carta de reivindicações da Cúpula dos Povos, entregue neste domingo à presidência da COP30, consolidou 15 propostas principais após dois anos de construção coletiva envolvendo mais de mil organizações. Entre os destaques estão o enfrentamento às falsas soluções de mercado, a participação e protagonismo dos povos na construção de soluções climáticas e o reconhecimento de saberes ancestrais. O documento também cobra o fim da exploração de combustíveis fósseis, incluindo especificamente a exploração de petróleo na Amazônia e demais regiões sensíveis.

Este último aspecto foi particularmente enfatizado durante a Cúpula dos Povos, com Raoni e outras lideranças indígenas criticando explicitamente o apoio do presidente Lula à exploração de petróleo na Margem Equatorial, região que inclui a foz do rio Amazonas. Raoni tem mantido posição firme contra a perfuração do bloco 59 da Petrobras, localizado a 175 quilômetros da costa do Amapá, em uma área ecologicamente sensível que abriga recifes de corais pouco conhecidos, o maior corredor de manguezais do mundo e dezenas de povos tradicionais.

Reconhecido mundialmente como um dos principais líderes indígenas vivos, Raoni consolidou sua trajetória como símbolo da resistência indígena desde os anos 1980, quando se tornou uma voz global contra o desmatamento e pela preservação dos territórios tradicionais. Sua influência alcançou a Constituição de 1988, onde foi voz importante para o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas. Em 2025, recebeu do presidente Lula o título de Grão-Mestre da Ordem Nacional do Mérito, a mais alta honraria do país.

A Cúpula dos Povos representa, portanto, não apenas um espaço de crítica às insuficiências das negociações oficiais da COP30, mas também um movimento de reafirmação dos direitos dos povos originários e tradicionais na construção de soluções para a crise climática global. O apelo final de Raoni pela continuidade da luta sintetiza o propósito do evento: mobilizar forças populares para enfrentar o que consideram os verdadeiros responsáveis pela catástrofe climática, incluindo indústrias de mineração, energia, agronegócio e grandes empresas de tecnologia.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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