A Fundação do Câncer lançou nova versão do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero com o objetivo de orientar profissionais de saúde sobre a mudança do principal método de rastreamento da doença no país. A atualização acompanha as novas diretrizes brasileiras, que preveem a substituição gradual do tradicional exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV na rede do Sistema Único de Saúde (SUS), em sintonia com a Estratégia Global da Organização Mundial da Saúde para eliminação do câncer do colo do útero até 2030.
A primeira edição do guia, em 2022, estava centrada na vacinação contra o HPV e no rastreamento citológico, método vigente à época. Desde então, avanços científicos, mudanças regulatórias e a incorporação de novas tecnologias no SUS tornaram necessária a revisão das orientações destinadas às equipes da atenção básica e serviços especializados. Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa, tanto a vacinação quanto o método de rastreamento sofreram mudanças importantes, especialmente a partir de 2024, com a ampliação do público-alvo da imunização e a inclusão dos testes moleculares de DNA-HPV na rotina do sistema público.
A nova diretriz determina que o teste de DNA-HPV passe a ser o exame de referência para rastreamento, identificando a presença do vírus oncogênico antes mesmo do aparecimento de alterações celulares. Enquanto o Papanicolau detecta lesões já instaladas no colo do útero, o teste molecular permite reconhecer precocemente a infecção pelos tipos de HPV com maior potencial de provocar câncer, o que aumenta a efetividade das estratégias de prevenção e possibilita intervalos mais longos e seguros entre os exames. Com a citologia, após dois resultados anuais normais, o exame passa a ser trienal; com o DNA-HPV, considerado mais sensível e automatizado, um resultado negativo autoriza a repetição somente após cinco anos.
O público-alvo para o rastreamento permanece o mesmo no Brasil: mulheres de 25 a 64 anos. Outros países adotaram início aos 30 anos, mas a decisão brasileira foi manter a faixa já consolidada, evitando a coexistência de dois métodos diferentes em uma mesma unidade de saúde. A orientação é que, onde o teste molecular ainda não estiver disponível, continuem valendo as regras baseadas no Papanicolau. A implementação do novo exame começou em setembro do ano passado, coordenada por um núcleo da Secretaria de Atenção Especializada em Saúde do Ministério da Saúde, com municípios de 12 estados em diferentes estágios de implantação e novas adesões em discussão com outras 12 unidades da federação.
O fluxo de encaminhamento das mulheres também passa a ser definido de acordo com o tipo de HPV detectado. Resultados positivos para os tipos 16 e 18 – responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero – levam à indicação imediata de colposcopia, exame que permite visualizar de forma ampliada o colo do útero e identificar lesões precursoras. Para um grupo de outros dez tipos de HPV classificados como oncogênicos, é realizada citologia reflexa a partir do mesmo material coletado. Se houver alterações, a paciente também é encaminhada para colposcopia. Caso a citologia seja normal, a mulher repete o teste de HPV em um ano, por estar em situação de risco intermediário entre quem apresenta HPV 16/18 e quem tem resultado totalmente negativo.
O guia incorpora ainda as metas assumidas pelo Brasil ao aderir à estratégia da OMS: vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e garantir tratamento adequado a 90% das mulheres com lesões precursoras ou câncer até 2030. Dentro desse conjunto, a vacinação contra o HPV é apontada como o pilar mais eficaz de prevenção, por evitar que a infecção se instale. Disponível no SUS desde 2014, a vacina quadrivalente protege contra os tipos mais frequentemente associados ao desenvolvimento do câncer do colo do útero. Meninas e meninos de 9 a 14 anos recebem dose única pelo Programa Nacional de Imunizações.
Após queda de cobertura durante a pandemia de covid-19 e com o avanço de movimentos antivacina, o Ministério da Saúde iniciou uma estratégia de resgate de adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não tinham sido vacinados, com ações previstas até o primeiro semestre de 2026. A vacinação gratuita também contempla grupos prioritários, como pessoas vivendo com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos, vítimas de violência sexual entre 9 e 45 anos e usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV. Para mulheres de 20 a 45 anos fora desses grupos, a vacina não está incorporada ao SUS e deve ser buscada na rede privada, com esquema de três doses e decisão compartilhada com o profissional de saúde.
Além da prevenção primária com a vacina e do rastreamento com o DNA-HPV, o documento destaca o terceiro pilar da estratégia: o tratamento oportuno das lesões precursoras e dos casos de câncer já instalados. A proposta é garantir acesso rápido ao diagnóstico complementar, à colposcopia, às biópsias e ao tratamento oncológico, de forma articulada em rede. Especialistas alertam que, se uma mulher com lesão ou câncer confirmado não recebe o tratamento adequado, rompe-se o elo da prevenção, anulando o impacto dos avanços tecnológicos e das campanhas de rastreamento. Por isso, a mensagem central do guia é que a simples troca de teste não basta: é necessário que toda a linha de cuidado do câncer do colo do útero esteja estruturada, do posto de saúde aos serviços de alta complexidade.
