‘Os irmãos Karamázov’ volta ao Rio com acessibilidade integrada à peça

O espetáculo teatral Os irmãos Karamázov, inspirado no clássico de Fiódor Dostoiévski, volta ao Rio de Janeiro em curta temporada no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, com uma proposta que coloca a acessibilidade no centro da experiência artística. A montagem, dirigida por Marina Vianna e Caio Blat, é bilíngue e incorpora a Língua Brasileira de Sinais (Libras) à própria encenação, indo além do modelo tradicional em que um intérprete fica isolado na lateral do palco. Aqui, Libras ocupa o espaço cênico: duas atrizes-intérpretes integram o elenco, dialogam com os demais atores, assumem personagens e, ao mesmo tempo, traduzem o texto em uma interpretação que busca acompanhar o ritmo e a poética da obra, e não apenas reproduzir falas de maneira rígida. Uma das cenas é apresentada inteiramente em Libras, envolvendo todos os 13 intérpretes em cena e transformando a língua de sinais em parte orgânica do gestual e da dramaturgia.

A acessibilidade, no entanto, não se limita às pessoas surdas. A produção estruturou um conjunto de recursos voltados a diferentes públicos. Pessoas com deficiência visual podem entrar antes da abertura geral do teatro, circulando pelo palco para ter contato tátil com figurinos e com os atores, criando uma relação sensorial prévia com o espetáculo. Há também um livro em tecido disponível para leitura em braile, ampliando as possibilidades de fruição do universo da peça. Para pessoas com hipersensibilidade auditiva, são oferecidos protetores auriculares, permitindo que ajustem o nível de som sem perder a experiência teatral. O objetivo, segundo a co-realizadora e produtora Maria Duarte, é não tratar a acessibilidade como mera contrapartida obrigatória ou adendo técnico, mas como uma “lente” criativa que atravessa todo o projeto, influenciando decisões artísticas desde o início dos ensaios.

Essa abordagem nasceu da experiência anterior de Maria à frente de um festival em outra área, marcado por forte compromisso com acessibilidade. O contato com diferentes recursos inclusivos despertou nela o desejo de aplicar essa mesma lógica ao teatro. Desde a concepção da montagem de Os irmãos Karamázov, a equipe de acessibilidade trabalhou lado a lado com diretores e elenco, de forma que soluções cênicas e recursos inclusivos se desenvolvessem juntos. O resultado, como ela relata, é um elenco numeroso se comunicando também em Libras, incorporando a língua de sinais ao corpo e ao movimento, o que a emociona ao perceber que a proposta de um espetáculo realmente acessível se concretizou antes mesmo da estreia. Maria afirma que nunca tinha assistido a uma peça com acessibilidade tão integrada, embora soubesse da existência de outras iniciativas, e espera que esse modelo estimule novas produções a seguir caminho semelhante.

Para os diretores, a dimensão social do projeto dialoga com o desejo de fazer um espetáculo popular a partir de um dos romances mais complexos de Dostoiévski. Em Belo Horizonte, uma temporada anterior, realizada em parceria com o projeto Acessa BH, lotou um teatro com 1,2 mil pessoas, evidenciando, na avaliação de Caio Blat, a grande demanda de público com deficiência interessado em frequentar o teatro quando encontra condições adequadas. Ele ressalta que incluir esses espectadores não é apenas uma questão de serviço, mas de ampliar o alcance da experiência artística. A escolha de Os irmãos Karamázov como base dramatúrgica se apoia no caráter profundamente teatral do romance: uma tragédia familiar marcada por conflitos intensos entre pai e filhos, que giram em torno de herança, paixão e moralidade. Ao trazer a narrativa para o palco com duração em torno de duas horas e recursos de acessibilidade integrados, a equipe busca provar que um clássico da literatura pode ser ao mesmo tempo sofisticado e verdadeiramente aberto a todos os corpos e modos de perceber o mundo.

As sessões acontecem em duas semanas, sempre de quinta a domingo. Às quintas e sextas-feiras, o espetáculo começa às 19h; aos sábados e domingos, às 17h. Os ingressos são vendidos pela internet e na bilheteria do Teatro Carlos Gomes, que funciona às quartas, das 14h às 19h, às quintas e sextas, a partir das 16h, e aos sábados e domingos, desde as 14h. O teatro abre para o público uma hora antes do início da peça, o que permite que as pessoas com deficiência visual realizem a experiência tátil com calma e que o público em geral se familiarize com o espaço. Com essa temporada, Os irmãos Karamázov se reafirma não apenas como adaptação de um clássico, mas como um laboratório de criação cênica em que a acessibilidade deixa de ser apêndice técnico e passa a constituir o próprio coração artístico do espetáculo.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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