Os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e dos Estados Unidos, Donald Trump, tiveram na noite de quarta-feira (8) a primeira conversa direta desde o início da escalada de ameaças e acusações entre os dois governos. O telefonema, confirmado por ambos os lados, marcou um raro momento de diálogo após dias de tensão desencadeada pela operação militar norte-americana que resultou no sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela e nas subsequentes declarações de Trump sobre uma possível ação militar na Colômbia.
Durante a conversa, Petro e Trump trataram de temas sensíveis da agenda bilateral, em especial a política de drogas e as divergências recentes entre os países. Nas redes sociais, o presidente colombiano publicou uma foto em que aparece ao telefone com o líder norte-americano e relatou parte do conteúdo discutido. Segundo ele, um dos pontos centrais foi o embate de visões sobre o papel dos Estados Unidos na América Latina. Petro afirmou que expôs a Trump sua discordância com uma relação baseada em exploração de recursos fósseis e pressão militar, defendendo em vez disso uma cooperação ancorada na transição energética e no respeito ao direito internacional.
O colombiano disse ter apresentado ao presidente norte-americano uma proposta para transformar o potencial de energia limpa da América Latina em alternativa estratégica para os Estados Unidos. De acordo com Petro, a região teria condições de suprir com fontes renováveis uma parte significativa da demanda energética norte-americana se houvesse um investimento da ordem de US$ 500 bilhões, montante que, segundo ele, hoje está “detido” pelos Estados Unidos. O presidente da Colômbia afirmou que esse projeto estaria “fundamentado na paz, na vida e na democracia global”, em contraposição ao que classificou como uma lógica de exploração de petróleo que, em suas palavras, conduziria à destruição do direito internacional, à barbárie e até à possibilidade de uma terceira guerra mundial.
Após o telefonema, Petro seguiu para uma manifestação popular convocada por ele próprio para responder às ameaças vindas de Washington. Diante da multidão, o presidente colombiano relatou que havia falado minutos antes com Trump e leu a mensagem divulgada pelo norte-americano. Segundo Petro, Trump descreveu a conversa como uma “grande honra”, afirmou ter ligado – ou atendido à ligação – para tratar da situação das drogas e de “outros desentendimentos” entre os dois e indicou a intenção de um encontro presencial em breve. O colombiano declarou ao público que agradeceu a disposição para o diálogo e que negociações já estariam em andamento para viabilizar uma reunião entre os dois presidentes.
A busca por esse degelo ocorre após uma sequência de ataques verbais que elevou a temperatura diplomática entre Bogotá e Washington. No domingo (4), em entrevistas à imprensa norte-americana, Trump afirmou que “a Colômbia está muito doente” e é governada por “um homem doente”, acusando Petro de produzir cocaína para vender aos Estados Unidos e sugerindo que uma invasão ao país “parecia ser uma boa ideia”. As declarações vieram na esteira da operação militar que capturou Nicolás Maduro em território venezuelano, movimento duramente criticado pelo governo colombiano.
Petro reagiu em termos igualmente duros. Em declarações públicas, disse que Trump tem “um cérebro senil” e acusou o líder norte-americano de enxergar “os verdadeiros libertários como narcoterroristas” por se recusarem a entregar carvão ou petróleo aos Estados Unidos. O presidente colombiano passou então a articular uma resposta política interna, convocando manifestações e pedindo que a população defendesse a soberania nacional diante do que classificou como uma ameaça ilegítima.
Nesse contexto, a ligação entre os dois líderes surge como um primeiro gesto para tentar conter a crise diplomática, ainda que sem apagar as profundas diferenças políticas e ideológicas que ficaram expostas nos últimos dias. Enquanto Trump mantém o discurso duro sobre o combate às drogas e não descarta operações militares como instrumento de pressão, Petro tenta transformar o confronto em uma discussão mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento da região, propondo que a América Latina seja tratada como parceira na transição para energias limpas e não apenas como fonte de recursos fósseis ou alvo de sanções e ações militares. O eventual encontro entre os dois, caso se concretize, deverá testar se esse canal de diálogo será suficiente para reduzir as tensões ou se a relação entre Colômbia e Estados Unidos continuará marcada por choques e desconfianças mútuas.
