EUA querem Groenlândia para barrar China no Ártico, dizem analistas

# Trump retoma ameaças de anexação da Groenlândia e gera crise na Otan

Donald Trump voltou a defender a anexação da Groenlândia após consolidar operações militares na Venezuela, desta vez indicando interesse em usar força militar para tomar o território semiautônomo dinamarquês. A Casa Branca confirmou em janeiro de 2026 que o presidente está discutindo opções para adquirir a ilha, incluindo o uso das Forças Armadas, gerando repercussão internacional significativa na Europa.

O presidente americano justifica seu interesse argumentando que a Groenlândia é estratégica para a segurança nacional dos EUA. Trump afirma que navios chineses e russos trafegam extensivamente no Ártico e que Washington não pode confiar na Dinamarca ou em outros países para proteger a região. Em declarações recentes, o presidente reiterou que “precisamos da Groenlândia para uma situação de segurança nacional” e destacou sua importância geopolítica para defender as hidrovias árticas.

O interesse americano pela região, porém, não é novo. Desde 1867, os EUA tentam adquirir ou anexar o território devido à sua posição estratégica e suas reservas minerais. Durante seu primeiro mandato, Trump já havia proposto a compra da Groenlândia, proposta que foi rejeitada pela então primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen como “absurda”. Em 2019, Trump cancelou uma visita oficial à Dinamarca após a rejeição dinamarquesa à ideia.

Desta vez, Trump retomou a proposta de forma mais agressiva. Em dezembro de 2025, nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para tratar do território, sinalizando uma abordagem mais sistemática. As autoridades dinamarquesas e groenlandesas responderam com firmeza. Frederiksen afirmou que os EUA não têm direito de anexar nenhuma parte do Reino dinamarquês e exortou veementemente Washington a cessar as ameaças. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, publicou nas redes sociais: “Já chega! Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação.”

O governo groenlandês deixou claro que apenas a ilha pode decidir sobre seu próprio futuro. A Dinamarca também recordou que, como membro da Otan, possui proteção garantida pela segurança coletiva da Aliança Atlântica.

A reação europeia foi imediata e unificada. Oito dos 32 países membros da Otan—França, Alemanha, Reino Unido, Portugal, Espanha, Itália, Polônia e Dinamarca—emitiram comunicado conjunto defendendo a soberania dinamarquesa, afirmando que “cabe à Dinamarca e à Groenlândia, e somente a elas, decidir sobre assuntos que dizem respeito à Dinamarca e à Groenlândia”. O comunicado acrescentou que os EUA são “um parceiro essencial” nos esforços de segurança ártica, buscando equilibrar a crítica com a necessidade de manter a aliança.

Especialistas alertam que uma ação militar americana contra um membro da Otan causaria uma crise real dentro da Aliança. Um dos assessores de Frederiksen afirmou: “Se os Estados Unidos decidirem atacar militaramente outro país da Otan, então tudo para. Inclusive a nossa Otan e a segurança implementada desde o fim da Segunda Guerra Mundial.”

A questão também desperta preocupações sobre o futuro da Otan sob a administração Trump. O presidente americano tem menosprezado as reações de aliados europeus, argumentando que a Europa não pagava suas contribuições até sua intervenção. Trump afirmou que apenas com sua interferência a Rússia não conquistou toda a Ucrânia.

Por trás das ameaças está uma estratégia geopolítica maior: controlar as rotas marítimas árticas para conter a influência chinesa e russa. O Oceano Ártico conecta Ásia, Europa e América do Norte, e com o derretimento das calotas polares devido às mudanças climáticas, espera-se que as rotas comerciais na região se tornem significativamente mais viáveis nas próximas décadas. A China se classificou oficialmente como um país “quase-ártico” em 2018 e tem cooperado com a Rússia para aumentar sua presença no oceano.

Especialistas em geopolítica explicam que os EUA já controlam praticamente todas as rotas comerciais oceânicas principais, mas possuem presença reduzida no Ártico. A anexação da Groenlândia representaria consolidação desse controle estratégico, dificultando o acesso chinês aos recursos árticos e ao domínio de novas rotas comerciais.

A Dinamarca já respondeu parcialmente aos movimentos americanos. Em 2025, anunciou um investimento de 42 bilhões de coroas dinamarquesas para reforçar sua presença militar no Ártico, sinalizando determinação em manter soberania sobre o território.

A situação permanece tensa. Enquanto Trump continua sua retórica de anexação, as autoridades dinamarquesas e europeias buscam manter a estabilidade da Otan, mas alertam que qualquer ação militar concreta contra um território sob proteção da Aliança constituiria uma ruptura histórica na segurança europeia e nos fundamentos da organização estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial. A anexação, segundo o direito internacional, seria ilegal, deixando aberta apenas a questão de como o mundo responderia a uma tentativa americana de ignorar o ordenamento jurídico internacional.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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