Lula e Petro conversam por telefone sobre situação na Venezuela

O telefonema entre Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, na tarde desta quinta-feira (8), marcou uma nova etapa da articulação diplomática sul-americana diante da ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, no último sábado (3). Segundo o Palácio do Planalto, os dois presidentes expressaram forte preocupação com o uso da força contra um país da região, que consideram uma violação do direito internacional, da Carta das Nações Unidas e da soberania venezuelana, com potencial de abrir um precedente perigoso para a paz e a segurança no continente e na ordem global.

Na conversa, Lula e Petro trataram dos desdobramentos imediatos da operação norte-americana, que incluiu bombardeios a pontos estratégicos de Caracas e resultou na remoção forçada de Maduro e de Cília para um centro de detenção em Nova York. Os dois mandatários avaliam que a ação aprofunda a instabilidade política e social na Venezuela e reacende, na América do Sul, memórias de intervenções estrangeiras ocorridas durante a Guerra Fria. A leitura em Brasília e em Bogotá é de que a ofensiva não se limita à captura de um chefe de Estado, mas representa um teste aos limites do sistema internacional e à capacidade dos países latino-americanos de defenderem conjuntamente seus princípios de soberania e autodeterminação.

Em meio a esse cenário, Lula e Petro saudaram o anúncio feito pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, sobre a libertação de presos nacionais e estrangeiros que estavam detidos no país. Para os dois líderes, o gesto é um sinal de que, apesar da pressão externa e da escalada militar, ainda há espaço para medidas humanitárias e para iniciativas internas de distensão. A decisão de Caracas é vista por diplomatas como uma tentativa de demonstrar boa vontade política e de reduzir o grau de tensão, enquanto cresce o escrutínio internacional sobre a crise venezuelana e sobre a legalidade da ação norte-americana.

Durante a ligação, Lula comunicou ao presidente colombiano que, a pedido do governo venezuelano, determinou o envio imediato de 40 toneladas de insumos e medicamentos, parte de um total de 300 toneladas já arrecadadas pelo Brasil. O carregamento inclui produtos e soluções para diálise destinados a reabastecer o estoque de um centro de abastecimento atingido pelos bombardeios dos Estados Unidos no sábado. A ofensiva militar danificou instalações críticas da área de saúde, comprometendo o atendimento de pacientes renais e criando o risco de colapso em serviços essenciais. A resposta brasileira foi apresentada pelo Planalto como uma ação de caráter estritamente humanitário, voltada para a proteção de civis e o funcionamento mínimo do sistema de saúde venezuelano, independentemente das disputas políticas e legais em torno da situação de Maduro.

A coordenação entre Brasil e Colômbia ganha peso adicional pelo fato de os dois países compartilharem, cada um, mais de 2 mil quilômetros de fronteira terrestre com a Venezuela. Essa condição geográfica os coloca na linha de frente de eventuais fluxos de refugiados, deslocamentos internos e impactos econômicos decorrentes da crise. Nos bastidores, técnicos e diplomatas dos dois governos avaliam cenários para aumento da migração, pressão sobre cidades fronteiriças, necessidade de reforço de infraestrutura e de cooperação em segurança, sem que isso signifique endosso à via militar adotada por Washington. Ao mesmo tempo, Brasília e Bogotá buscam posicionar-se como vozes em defesa de uma saída negociada, que envolva organismos multilaterais e escute os países da região.

A interlocução de Petro com Lula também ocorre em meio à tensa relação recente do presidente colombiano com Donald Trump. Na véspera, o líder da Colômbia já havia conversado com o presidente dos Estados Unidos, após ser alvo de ameaças e acusações sem provas, nas quais Trump o associou ao narcotráfico. As declarações do norte-americano ampliaram o clima de desconfiança e isolaram ainda mais Washington no debate público latino-americano sobre a legitimidade da intervenção na Venezuela. A busca de Petro por diálogo com Lula indica o interesse colombiano em se apoiar em parceiros regionais para enfrentar pressões externas e reafirmar sua autonomia diplomática.

Enquanto Washington sustenta que a operação contra Maduro se fundamenta em acusações de narcoterrorismo e em ações de combate ao tráfico internacional de drogas, governos e especialistas em direito internacional na América Latina descrevem o episódio como sequestro de um presidente em exercício e ato de terrorismo de Estado. A crítica central é de que os Estados Unidos abriram mão dos mecanismos tradicionais de cooperação judicial e ignoraram instâncias multilaterais como a Organização das Nações Unidas, optando por uma ação unilateral de força em território estrangeiro. Em discursos recentes, representantes de países sul-americanos alertaram que a invasão cria um precedente que pode ser invocado por outras potências para justificar intervenções semelhantes, incluindo retaliações geopolíticas em diferentes regiões do mundo.

Nesse quadro, a postura brasileira combina condenação ao uso da força e oferta de ajuda humanitária. Aliados de Lula afirmam que o envio de insumos e medicamentos não implica reconhecimento de qualquer autoridade específica na Venezuela, mas sim compromisso com a proteção da população local. A avaliação nos círculos diplomáticos em Brasília é de que, ao articular-se com Petro e enfatizar princípios de soberania, paz e solução diplomática de controvérsias, o Brasil tenta recuperar protagonismo regional e se recolocar como mediador possível em uma crise que ultrapassa as fronteiras venezuelanas e coloca à prova os limites da ordem internacional vigente.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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