A decisão do governo Donald Trump de retirar os Estados Unidos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e do Fundo Verde do Clima (GCF) abriu um novo choque entre Washington e a comunidade internacional e acendeu alertas sobre o futuro da governança climática global. Ao anunciar a saída de um total de 66 organismos multilaterais, a administração republicana sinalizou um afastamento inédito de estruturas criadas, em boa parte, com forte protagonismo norte-americano ao longo das últimas três décadas.
Para Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC, a guinada representa um “gol contra colossal” dos próprios Estados Unidos. Ele lembra que o país foi peça-chave tanto na criação da Convenção do Clima quanto na articulação do Acordo de Paris, marco das negociações que definem metas nacionais para limitar o aquecimento global neste século. Ao renunciar a esse papel, avalia, Washington abre mão de um instrumento que serve diretamente ao seu interesse nacional, num momento em que eventos extremos – como incêndios florestais, enchentes, megatempestades e secas prolongadas – se intensificam no próprio território norte-americano.
A UNFCCC é o guarda-chuva jurídico sob o qual se realizam, todos os anos, as Conferências das Partes (COP), encontros que reúnem quase 200 países para negociar regras, metas e mecanismos de financiamento para enfrentar a crise climática. A edição mais recente, a COP30, realizada em Belém, consolidou debates sobre transição energética, proteção de florestas e aumento da ambição climática até 2035, em grande medida apoiados nos relatórios científicos produzidos pelo IPCC, outro organismo que agora perde a participação oficial dos EUA. Especialistas apontam que a ausência de um dos maiores emissores e financiadores do sistema pode enfraquecer tanto a capacidade de coordenação das políticas globais quanto o fluxo de recursos para países em desenvolvimento.
Segundo Stiell, a conta política da decisão tende a se materializar em custos econômicos crescentes para famílias e empresas norte-americanas. Ele projeta impacto direto nos preços de energia, alimentos, transporte e seguros, num cenário em que fontes renováveis, como solar e eólica, continuam reduzindo custos em ritmo acelerado, enquanto combustíveis fósseis permanecem expostos à volatilidade geopolítica e a choques de oferta. A combinação entre desastres climáticos mais frequentes, danos a lavouras e infraestrutura e oscilações nos mercados de petróleo, carvão e gás deve pressionar cada vez mais o orçamento público, o sistema financeiro e o patrimônio privado nos Estados Unidos.
Do lado da ciência, a saída do IPCC representa um golpe simbólico e prático. O painel, que reúne milhares de pesquisadores e sintetiza, em relatórios periódicos, o estado do conhecimento sobre mudanças climáticas, serve de base para decisões políticas, regulação econômica, planejamento urbano e estratégias empresariais em todo o mundo. A retirada norte-americana, embora não interrompa o trabalho do IPCC, tende a reduzir o peso institucional do país na definição de agendas de pesquisa, metodologias e recomendações, além de sinalizar menor disposição em alinhar políticas domésticas às evidências científicas consolidadas.
No campo do financiamento, a ruptura com o Fundo Verde do Clima adiciona uma camada de incerteza. Criado para apoiar nações em desenvolvimento a cortar emissões e se adaptar aos impactos da crise climática, o GCF tornou-se peça central do esforço de canalizar recursos de países ricos para projetos em regiões mais vulneráveis. Em nota, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, justificou a saída classificando o fundo como uma organização “radical” e alegando que seus objetivos contrariam a premissa de que energia acessível e confiável é a base do crescimento econômico e da redução da pobreza. Segundo ele, os Estados Unidos permanecem comprometidos com o avanço de todas as fontes de energia acessíveis, mas consideram incompatível a permanência no GCF com as prioridades traçadas pelo governo Trump.
Essa leitura diverge da visão predominante entre organismos multilaterais, governos de outros países e organizações da sociedade civil, que enxergam no fundo um instrumento para acelerar a transição energética, reduzir riscos de desastres e evitar perdas humanas e econômicas de grande escala. Para esses atores, o recuo norte-americano reduz a previsibilidade do fluxo de recursos, dificulta a estruturação de novos projetos e pode atrasar planos de descarbonização em países que dependem de cooperação internacional para ampliar investimentos em energias renováveis, mobilidade sustentável e agricultura resiliente.
No Brasil, o Instituto Talanoa avalia que a decisão dos EUA de abandonar o IPCC e a Convenção do Clima inaugura um novo capítulo de choque político em plena escalada da crise climática global. A entidade destaca que o movimento enfraquece a credibilidade internacional americana, mas não determina sozinho o curso da governança climática. O cenário, segundo a organização, dependerá da capacidade de outros países de resistir a um possível efeito dominó e assumir responsabilidades maiores em termos de liderança, financiamento e ambição nas metas de redução de emissões.
A presidente do instituto, Natalie Unterstell, alerta que o regime multilateral climático segue em funcionamento, mas já sente os primeiros efeitos da retração norte-americana. A expectativa é de queda imediata no financiamento internacional, sobretudo em linhas voltadas à adaptação, proteção de florestas e compensação por perdas e danos em países mais pobres. Se outros governos optarem por seguir o caminho traçado por Trump ou se as demais potências não se movimentarem rapidamente para ocupar o vácuo, o sistema pode atravessar um período de baixa prolongada, com custo real em coordenação e capacidade de resposta aos impactos climáticos.
No plano geopolítico, analistas observam que a ruptura aprofunda a imagem de um Estados Unidos mais desconfiado de instituições multilaterais e menos disposto a acordos de longo prazo que limitem, ainda que parcialmente, sua autonomia de decisão. O discurso de defesa da soberania, associado a críticas à suposta ingerência de organismos internacionais em políticas de energia e meio ambiente, ganha força entre apoiadores de Trump e setores ligados à indústria fóssil, enquanto governos europeus, países vulneráveis e coalizões de cidades e estados norte-americanos reforçam compromissos de manter ou ampliar suas metas climáticas.
A saída da UNFCCC, do IPCC e do Fundo Verde do Clima expõe, assim, uma disputa de narrativas sobre o que significa segurança e prosperidade no século 21. De um lado, a Casa Branca aposta em uma agenda de curto prazo centrada na expansão de combustíveis fósseis e na redução de obrigações internacionais. De outro, cientistas, ex-dirigentes e organizações climáticas insistem que ignorar a arquitetura multilateral e a ciência do clima tornará o próprio Estados Unidos mais vulnerável a choques ambientais, sociais e econômicos. O desenrolar dessa escolha, alertam, será medido não apenas em pontos de crescimento ou desemprego, mas nas vidas afetadas por eventos extremos, na estabilidade de cadeias produtivas e na capacidade do mundo de manter a janela ainda estreita para limitar o aquecimento global.
