A decisão do governo venezuelano de iniciar um “processo exploratório diplomático” com os Estados Unidos marca uma reviravolta brusca em uma crise que, em menos de uma semana, passou de invasão militar e sequestro do chefe de Estado à tentativa de recompor laços entre Caracas e Washington. O anúncio foi feito pelo chanceler Yván Gil, em comunicado divulgado nesta sexta-feira (9), com o objetivo de preparar o restabelecimento das relações diplomáticas rompidas desde 2019, ao mesmo tempo em que o país segue denunciando a operação norte-americana que levou à captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
O texto do governo venezuelano foi divulgado quase uma semana após a incursão militar dos Estados Unidos em território venezuelano, no sábado (3), ação que resultou no sequestro de Maduro e da primeira-dama. Caracas descreve a operação como uma “agressão criminosa, ilegítima e ilegal” contra o país e afirma que mais de uma centena de civis e militares morreram nos confrontos, em violação flagrante do direito internacional. Segundo o comunicado, a captura do então presidente constitucional e de sua esposa representa grave violação da imunidade pessoal de chefes de Estado e dos princípios fundamentais da ordem jurídica internacional.
Apesar do tom duro, o governo interino que assumiu após a detenção de Maduro afirma ter escolhido o caminho diplomático para lidar com as consequências políticas e jurídicas da operação. O processo exploratório com Washington busca, de um lado, discutir as responsabilidades e os desdobramentos do ataque e do sequestro e, de outro, montar uma agenda de trabalho de interesse mútuo, que inclui a reabertura de embaixadas e a normalização de canais oficiais entre os dois países. Uma delegação norte-americana já esteve em Caracas para avaliar condições para a retomada das atividades diplomáticas, e o governo venezuelano anunciou que também enviará representantes a Washington.
A captura de Maduro teve forte repercussão regional e dividiu opiniões sobre os limites da ação norte-americana no continente. Em reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), o representante brasileiro classificou o sequestro do ex-presidente como um ato gravíssimo, evocando tempos que muitos julgavam superados na América Latina. Para Brasília, o episódio acende um alerta sobre o uso da força e sobre o precedente que intervenções desse tipo podem criar para a paz e a segurança regionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou o diálogo com outros líderes sul-americanos desde o ataque. Em conversa telefônica recente, Lula e o presidente colombiano, Gustavo Petro, manifestaram preocupação com o uso da força contra um país sul-americano, em afronta à Carta das Nações Unidas, ao direito internacional e à soberania da Venezuela. Brasil e Colômbia, que compartilham as maiores fronteiras terrestres com o território venezuelano, veem a escalada como um fator de risco adicional em uma região já marcada por tensões políticas e fluxos migratórios intensos.
Nos Estados Unidos, a ofensiva militar também provocou reação no Congresso. O Senado aprovou uma resolução que determina a interrupção do uso da força contra a Venezuela sem autorização expressa dos parlamentares. O texto orienta o presidente norte-americano a cessar o emprego das Forças Armadas em hostilidades dentro ou contra o país sul-americano, exceto nos casos em que houver declaração formal de guerra ou autorização específica para o uso da força militar. A medida é interpretada como um freio institucional às iniciativas unilaterais da Casa Branca no cenário venezuelano.
Enquanto a arena diplomática começa a ser reconstituída, o petróleo permanece no centro da disputa entre Caracas e Washington. Em entrevista ao jornal The New York Times, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos podem controlar, por anos, a receita gerada pela venda do petróleo venezuelano. Segundo ele, o país já se apropriou de 50 milhões de barris de petróleo da Venezuela, destinados ao refino e à comercialização sob supervisão norte-americana. A declaração intensifica a percepção de que a reconstrução e o controle do setor energético venezuelano são peça-chave na estratégia de Washington.
A combinação entre tentativa de normalização diplomática e manutenção de pressão econômica e política evidencia a complexidade do momento vivido pela Venezuela. De um lado, o governo interino tenta consolidar sua legitimidade interna e internacional, administrando os efeitos da queda de Maduro e da operação militar estrangeira. De outro, busca transformar o canal diplomático em instrumento para contestar, no marco do direito internacional, a legalidade da intervenção e da captura de seu ex-presidente. Entre manifestações de preocupação de países vizinhos, movimentos no Congresso norte-americano e a disputa pelo petróleo venezuelano, a retomada das conversas entre Caracas e Washington redefine, em poucos dias, o tabuleiro geopolítico da América Latina.
