Trump faz ameaças a Cuba e presidente Miguel Diaz-Canel reage

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou neste domingo a pressão sobre o governo de Cuba ao ameaçar encerrar completamente o fornecimento de petróleo e recursos financeiros provenientes da Venezuela, condicionando qualquer mudança de rumo em Havana a um acordo direto com Washington. Em mensagens publicadas em sua rede social Truth Social, Trump afirmou que “não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba – zero” e sugeriu “fortemente” que o regime cubano “faça um acordo antes que seja tarde demais”, em mais um capítulo da escalada norte-americana na região após a captura de Nicolás Maduro.

Segundo o presidente norte-americano, Cuba teria se beneficiado “por muitos anos” de grandes volumes de petróleo e de apoio financeiro enviados por Caracas, em troca do fornecimento de agentes de segurança e inteligência para os dois últimos líderes venezuelanos, Hugo Chávez e Nicolás Maduro. A atuação de cubanos na segurança presidencial na Venezuela era vista em Washington como um símbolo da aliança estratégica entre os dois países, construída para amortecer o impacto das sanções impostas pelos Estados Unidos tanto a Havana quanto a Caracas desde a década de 1960. Com a queda de Maduro e a mudança abrupta de cenário político em Caracas, Trump sustenta que esse arranjo se encerrou: a ilha, que recebia cerca de 30% de seu petróleo da Venezuela, ficaria agora sem esse suporte, o que tende a agravar a já crônica crise energética e econômica cubana.

Trump vinculou diretamente a ameaça ao desfecho da operação que resultou na captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, no início de janeiro, em Caracas. O casal foi levado para uma prisão em Nova York, onde responde a acusações de narcoterrorismo, e a ação militar foi apresentada pela Casa Branca como um marco da nova postura dos Estados Unidos na América Latina. De acordo com o relato do presidente, a maioria dos agentes cubanos envolvidos na proteção de Maduro foi morta durante a ofensiva. Havana reconheceu a morte de dezenas de seus cidadãos na operação, o que expôs a dimensão da presença cubana na estrutura de segurança do antigo governo venezuelano e alimentou, em Washington, o discurso de que Cuba atuava como fiadora do regime chavista.

Ao mesmo tempo em que declara encerrado o papel de Cuba como guardiã da cúpula venezuelana, Trump afirma que a segurança de Caracas passa a ser garantida diretamente pelos Estados Unidos. Em suas publicações, ele diz que a Venezuela “não precisa mais da proteção de bandidos e extorsionistas que a mantiveram refém por tantos anos” e insiste que o país agora “conta com os Estados Unidos da América, as forças armadas mais poderosas do mundo (de longe!) para protegê-la”. O recado funciona como um duplo sinal: internamente, alimenta a narrativa de liderança militar e geopolítica de Washington; externamente, envia uma mensagem ao restante da região de que a Casa Branca está disposta a redesenhar, pela força, o equilíbrio de poder em países considerados estratégicos.

As declarações sobre Cuba, porém, vão além da dimensão energética e militar e alcançam diretamente o sistema político da ilha. Trump, que já vinha utilizando as redes sociais para comentar o futuro do país caribenho, reagiu a postagens que sugeriam, em tom provocativo, a possibilidade de figuras do governo americano virem a liderar o país no pós-regime socialista. Em uma dessas interações, o presidente endossou a ideia de que o atual secretário de Estado, o republicano Marco Rubio, de origem cubana e crítico contumaz do governo de Havana, pudesse se tornar presidente de Cuba, respondendo que a proposta lhe parecia “ótima”. O gesto foi interpretado por observadores como mais um indício de que a Casa Branca não descarta uma tentativa de mudança forçada de regime na ilha, à semelhança do que ocorreu na Venezuela com a destituição de Maduro.

Do ponto de vista econômico, o fim anunciado do fluxo de petróleo venezuelano representa um golpe sensível para Cuba. A ilha enfrenta há décadas os efeitos do embargo econômico dos Estados Unidos, em vigor desde os anos 1960, e encontrou na associação com a Venezuela uma fonte crucial de energia subsidiada e de recursos que ajudaram a aliviar sucessivos períodos de desabastecimento. A parceria, fortalecida a partir da era Chávez e consolidada com Maduro, previa o envio de petróleo em troca de profissionais e serviços, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança. Sem esse canal, especialistas alertam para o risco de apagões mais frequentes, impacto no transporte público e pressão adicional sobre um sistema produtivo que já opera sob forte escassez e racionamento.

A resposta de Havana às ameaças de Trump veio diretamente do presidente Miguel Díaz-Canel, que utilizou as redes sociais para defender a soberania cubana e rebater as acusações. Ele afirmou que “Cuba é uma nação livre, independente e soberana” e que “ninguém nos dirá o que fazer”, em um discurso que retoma a retórica da resistência histórica ao poder norte-americano. Díaz-Canel sustenta que o país não é agressor, mas alvo de agressões dos Estados Unidos há 66 anos, e afirma que Cuba “não ameaça”, mas se prepara para defender a pátria “até a última gota de sangue”. Ao invocar a continuidade da linha inaugurada por Fidel Castro e mantida por Raúl Castro, o líder cubano procura reafirmar, interna e externamente, a imagem de firmeza diante da pressão de Washington.

O presidente cubano também direcionou críticas contundentes aos que, dentro e fora da ilha, atribuem as carências econômicas do país à permanência do regime socialista. Segundo Díaz-Canel, aqueles que culpam a revolução pelas dificuldades “deveriam se calar por vergonha”, pois sabem que a principal causa das privações são as medidas de “asfixia extrema” impostas pelos Estados Unidos ao longo de seis décadas, agora, segundo ele, em processo de endurecimento. Na visão de Havana, a política de sanções e bloqueios é o elemento central na deterioração do padrão de vida da população, afetando desde o acesso a alimentos e combustíveis até a capacidade de importação de insumos básicos para a indústria e os serviços.

Em outro trecho de sua manifestação, Díaz-Canel acusa os Estados Unidos de falta de autoridade moral para apontar o dedo para Cuba, argumentando que Washington “transforma tudo em negócio, até mesmo vidas humanas”. O presidente afirma que os atores que hoje “se revoltam histericamente” contra a nação cubana estão consumidos pela raiva diante da “decisão soberana” do povo de escolher seu próprio modelo político. A mensagem apresenta uma visão de confronto ideológico em que Havana se coloca como bastião de independência frente a uma superpotência que, segundo o discurso oficial cubano, tenta impor sua vontade por meio de sanções, isolamento diplomático e, agora, de intervenções militares em países aliados.

A troca de declarações entre Trump e Díaz-Canel ocorre em meio a forte tensão regional e remete a antigas feridas na relação entre Cuba e Estados Unidos, historicamente marcada por embargo, tentativas de derrubada de governos e disputas do período da Guerra Fria. A captura de Maduro e a nova configuração política na Venezuela colocam Havana em uma posição de vulnerabilidade estratégica, ao mesmo tempo em que oferecem a Washington a oportunidade de tentar enfraquecer um dos últimos governos de inspiração socialista nas Américas. Enquanto Trump aposta na combinação de pressão econômica, demonstração de força militar e declarações públicas contundentes, o governo cubano responde com apelos à soberania, denúncias de “asfixia” e a afirmação de que não aceitará que outro país dite seu destino.

Entre as duas narrativas, milhões de cubanos se veem diante da perspectiva de um agravamento das dificuldades cotidianas, com possível redução no abastecimento de combustíveis, impacto no transporte, na geração de energia elétrica e na oferta de serviços básicos. A incerteza sobre o futuro da aliança com uma Venezuela agora sob tutela direta dos Estados Unidos projeta sombras sobre a estabilidade de um regime que já enfrenta desgaste interno, aumento da emigração e crescente pressão internacional. O desenrolar dos próximos meses, tanto em Havana quanto em Caracas e em Washington, deve definir se a ameaça de Trump permanecerá no campo da retórica ou se se converterá em uma ruptura definitiva de um dos poucos canais de apoio externo ainda disponíveis para Cuba.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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