O trenó verde e amarelo voltou a fazer história nas pistas de gelo. Aos 46 anos, o baiano Edson Bindilatti garantiu presença em sua sexta Olimpíada de Inverno ao comandar o bobsled brasileiro na conquista da vaga para os Jogos de Milão-Cortina, em 2026, após um fim de semana de resultados decisivos em Lake Placid, nos Estados Unidos. A classificação veio com o quarto lugar na Copa América de bobsled na prova de trenó para quatro atletas, o 4-man, e a medalha de bronze no Campeonato Pan-Americano, disputados simultaneamente na tradicional pista norte-americana.
No 4-man, o Brasil terminou atrás apenas de Coreia do Sul, Estados Unidos e Canadá, potências da modalidade. Como o Pan-Americano considera somente as equipes do continente, o desempenho garantiu lugar no pódio para o quarteto formado por Bindilatti, os paulistas André Luiz da Silva e Edson Martins e o catarinense Tauler Zatti. No ranking que combina os resultados do 4-man e do 2-man, a soma da campanha em Lake Placid assegurou ao país pelo menos uma vaga olímpica em Milão-Cortina, com um trenó pilotado por Bindilatti, entre 6 e 22 de fevereiro.
A classificação coroou um fim de semana de grande performance também no trenó de dois lugares. Na véspera, Bindilatti e Tauler Zatti já haviam conquistado a medalha de prata na prova do 2-man na Copa América, superados apenas pela dupla da Jamaica. O resultado também significou o segundo lugar no Pan-Americano da modalidade, consolidando a consistência do time brasileiro às vésperas do fim da janela de classificação.
Embora a vaga esteja assegurada, a definição completa da equipe ainda será aguardada. A convocação oficial dos demais integrantes do trenó que irá à Itália está prevista para o dia 19 de janeiro. A cota obtida pelo país permite a participação nas provas olímpicas de 4-man e 2-man, ambas com Bindilatti já confirmado como piloto. Cabe à Confederação Brasileira de Desportos no Gelo ajustar a formação ideal, levando em conta desempenho físico, técnica de largada e entrosamento do grupo.
A trajetória de Edson Bindilatti ajuda a dimensionar o peso dessa conquista para o esporte de inverno brasileiro. Revelado no atletismo e com passagem pelo decatlo, ele migrou para o bobsled em 2000 e se tornou o principal nome da modalidade no país. Desde a estreia em Salt Lake City 2002, o piloto esteve em todas as edições olímpicas seguintes: Turim 2006, Vancouver 2010, Sochi 2014, PyeongChang 2018 e Pequim 2022. Em 2025, liderou o trenó nacional ao 13º lugar no Campeonato Mundial em Lake Placid, o melhor resultado do Brasil na história do bobsled. Milão-Cortina deve marcar o último ciclo olímpico do baiano como piloto da seleção.
Enquanto o veterano consolida sua carreira, uma nova geração tenta ampliar a presença brasileira na pista. O paulista Gustavo Ferreira, de 24 anos, comanda o segundo trenó do país na corrida por mais uma vaga olímpica. Em Lake Placid, sua equipe foi quarta colocada no Pan e sexta na Copa América no 4-man, com os também paulistas Davidson de Souza e Luiz Henrique Bacca e o carioca Rafael de Souza. No 2-man, Gustavo e Rafael terminaram em quarto lugar, resultado que mantém o Brasil na disputa por uma segunda cota.
A definição dessa segunda vaga passará pela etapa de Innsbruck, na Áustria, da Copa Europa, entre 14 e 18 de janeiro. Será mais uma oportunidade para o trenó de Gustavo somar pontos no ranking internacional e tentar colocar o Brasil com dois conjuntos no bobsled masculino em Milão-Cortina. A própria equipe de Bindilatti também deve competir em provas europeias neste período, em busca de melhorar ainda mais suas posições na lista classificatória.
Nos bastidores, dirigentes e atletas destacam o peso simbólico de ver um país tropical, sem tradição em neve e gelo, consolidar presença repetida em uma das modalidades mais emblemáticas dos Jogos de Inverno. A estrutura itinerante de treinos, as longas temporadas no exterior e a necessidade de captar recursos privados tornam cada resultado ainda mais significativo. O desempenho recente em Lake Placid indica que o Brasil não apenas se mantém no cenário internacional, como passa a disputar posições intermediárias em Copas e Mundiais.
Com a vaga confirmada e a experiência de um piloto que atravessou duas décadas de Olimpíadas, o bobsled brasileiro chega a Milão-Cortina com a meta esportiva de transformar a permanência no programa olímpico em resultados ainda mais competitivos, abrindo caminho para que a nova geração encontre uma base mais sólida do que aquela que recebeu. Enquanto a neve italiana não cai, o trenó verde e amarelo segue acelerando pelo ranking mundial, empurrado por história, resiliência e pelo sonho de levar o Brasil ainda mais longe no gelo.
