Às 4h30 da manhã, o som do Córrego da Inês desperta Aleandro, de 6 anos, que se prepara animado para ir à escola com seus irmãos Alecssandro, de 7, e Tawane, de 15. Eles percorrem quase dois quilômetros em uma estrada de terra no Cerrado, enfrentando a escuridão para não perder a kombi que os leva à escola municipal, a 15 km de distância.
Na comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO), os pais Roberto Braga e Mayara Soares se orgulham do esforço dos filhos, lembrando que desistiram de estudar por falta de apoio. O avô, Joaquim Moreira, de 87 anos, observa com esperança as crianças indo à escola, acreditando que não enfrentarão as mesmas dificuldades do passado.
A comunidade celebrou a certificação de autorreconhecimento como remanescente de quilombo, após uma batalha judicial contra fazendeiros e grileiros. O documento trouxe esperança de demarcação do território e impulsionou a busca por políticas públicas. As crianças enfrentam desafios diários, como a falta de iluminação na estrada e transporte insuficiente, especialmente em dias de chuva.
A irmã mais velha, Tawane, enfrentava dificuldades para chegar à escola, atravessando um córrego e chegando molhada. Após reclamações, a prefeitura disponibilizou mais transporte. A jovem sonha em cursar veterinária, sendo a primeira da família a alcançar o ensino superior.
A associação das famílias da comunidade, presidida por Willianderson Moreira, busca melhorias como creche, escola, posto de saúde e infraestrutura. A expectativa é que a demarcação do território ocorra em 2027. A comunidade já protocolou ofícios na prefeitura, com apoio de líderes locais, para encaminhar suas demandas.
A comunidade enfrenta também a falta de transporte público para emergências médicas, dependendo da solidariedade entre vizinhos. Alterações ambientais, atribuídas ao uso de agrotóxicos por grileiros, afetaram a região. Mesmo assim, as crianças apreciam a vida rural e as atividades ao ar livre.
Moradores como Ana Clity Vieira enfrentam dificuldades para concluir os estudos devido à falta de transporte. Ela sonha em abrir uma loja e escrever um livro sobre sua vida e desafios. A comunidade aguarda respostas das autoridades locais sobre políticas públicas para atender suas necessidades.
