Uma investigação conduzida pelas repórteres Eliane Gonçalves e Sumaia Villela da Radioagência Nacional revela a dimensão econômica da ditadura militar brasileira, destacando como o regime serviu de plataforma lucrativa para empresas nacionais, multinacionais e governos estrangeiros. A segunda temporada do podcast ‘Golpe de 1964: Perdas e Danos’, intitulada ‘Passado Leiloado’, explora em cinco episódios semanais os mecanismos de ‘captura do Estado’ por interesses privados e o rastro financeiro que sustentou o período de exceção.
Este trabalho, um produto original da Radioagência Nacional, marca o aniversário de 62 anos do golpe militar que depôs o presidente João Goulart em 1º de abril de 1964, modificando os rumos do país. A série revela quem se beneficiou financeiramente da ditadura, que não apenas suprimiu direitos civis, mas também gerou lucros e dívidas para o Brasil. Os episódios são lançados todas as quartas-feiras no site da Radioagência Nacional e nas principais plataformas de áudio.
A série adota uma abordagem distinta ao ‘seguir o dinheiro’ para identificar os beneficiários do projeto econômico implementado sem debate público. O podcast também destaca uma iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) e de pesquisadores acadêmicos que busca responsabilização e preservação da memória sobre as violações de direitos humanos no período.
A temporada começa revelando uma faceta pouco conhecida da diplomacia europeia, com documentos inéditos mostrando que a Suíça, apesar de sua imagem de neutralidade, foi um dos maiores investidores no Brasil durante a ditadura. Empresários suíços admiravam a ‘paz social’ do regime, caracterizada por arrocho salarial e proibição de greves.
O episódio de estreia explora a trama que envolve o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher em 1970 e os interesses dos credores suíços em manter o regime de exceção no Brasil. No segundo episódio, a série examina o papel de empresas multinacionais e a ligação dessas corporações com o executivo Osvaldo Ballarin, que atuava como embaixador do capital estrangeiro junto aos militares.
A investigação também aborda indícios de contratos de obras superfaturadas e a engrenagem de endividamento externo, como a construção da Hidrelétrica de Itaipu, além da proximidade de altos executivos com a arrecadação de recursos para a Operação Bandeirantes (OBAN), centro de tortura do regime ditatorial em São Paulo.
O podcast ainda revela como a ditadura influenciou o cenário atual da educação brasileira, exemplificado pelo caso de uma escola que cresceu significativamente após contratos privilegiados em Foz do Iguaçu, ilustrando a política estatal de estímulo ao ensino privado em detrimento do público.
Um dos aspectos mais sensíveis da pesquisa é a conexão direta entre a elite escravocrata do século XIX e os financiadores da ditadura no século XX. A série conclui discutindo o futuro da justiça de transição no Brasil, com foco na responsabilização civil de empresas que colaboraram com o regime, já que a Lei da Anistia protege apenas pessoas físicas.
