Aos 70 anos, Élio Alves da Silva lembra da chegada da usina hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, como um evento que gostaria de esquecer, mas que deixou marcas profundas em sua vida. Pescador na comunidade de Santo Antônio, em Vitória do Xingu, ele tomou conhecimento do projeto no início dos anos 1980, cinco anos após o governo brasileiro iniciar estudos para mapear o potencial energético do Rio Xingu.
Silva recorda que uma empresa chamada Cenec cortou a mata, abriu picadas e realizou explosões para verificar se a região suportaria a barragem. Nesta terça-feira, completam-se dez anos da inauguração oficial da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, um empreendimento que ganhou destaque internacional ao propor o desvio de 80% do fluxo do Rio Xingu para o reservatório de Belo Monte.
Apesar do barulho das obras, a região ainda era rica em peixes. Silva lembra da variedade de espécies que pescava, mas as mudanças foram rápidas e intensas. As explosões aumentaram, os peixes começaram a desaparecer e 67 famílias, incluindo a de Silva, foram informadas de que deveriam deixar o local. Ele recebeu uma pequena chácara nos arredores de Altamira, enquanto seus filhos foram realocados em áreas distantes.
Na mesma época, Sara Lima, da comunidade de Belo Monte do Pontal, em Anapu, também sentiu os impactos. Embora sua família não tenha sido deslocada, perdeu a capacidade de gerar renda e a segurança alimentar que o Rio Xingu proporcionava. Ela lamenta a perda do rio que antes oferecia água limpa e alimento.
Para marcar os dez anos de Belo Monte, diversas entidades divulgaram uma carta aberta em defesa das comunidades afetadas, destacando o agravamento das violações devido às mudanças climáticas. O documento menciona as secas extremas que intensificaram os impactos já existentes, evidenciando a fragilidade do empreendimento.
A advogada Erina Gomes, da Aida, afirma que um parecer da Corte Interamericana de Direitos Humanos fortalece uma petição apresentada em 2011, responsabilizando o Estado por violações durante a construção da usina. As organizações esperam que um relatório da Corte crie jurisprudência para evitar futuros impactos semelhantes.
Sob administração da Norte Energia, Belo Monte é considerada essencial para o Sistema Interligado Nacional, atendendo a 5% da demanda energética do país. A empresa afirma ter investido mais de R$ 8 bilhões em compromissos socioambientais, incluindo a construção de hospitais, escolas e ações para comunidades indígenas.
Apesar dos investimentos, organizações sociais e a população atingida alegam que os projetos não foram concluídos e as iniciativas foram insuficientes para reparar os danos causados. Sara Lima conclui que as atividades produtivas propostas nunca substituirão o rio que antes oferecia abundância de peixes.
