É com inovação na nanotecnologia que pesquisadores da Paraíba propõem transformar a maneira como a hanseníase é diagnosticada no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa, financiada pelo Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS) executada pela Fundação de Apoio à Pesquisa da Paraíba (Fapesq), está produzindo um híbrido, voltado ao diagnóstico rápido, precoce e de baixo custo. Com vigência entre abril de 2026 e março de 2028, o projeto integra o Eixo III – Vigilância em Saúde e conta com investimento aproximado de R$130 mil, recurso destinado à compra de equipamentos e insumos necessários para a pesquisa.
O projeto “Inovação em Nanotecnologia Aplicada à Saúde: Biossensor Multifuncional de TiO₂-CoFe₂O₄-Ag para Diagnóstico da Hanseníase” está sendo desenvolvido na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
A iniciativa é coordenada pela professora doutora Ana Cristina Figueiredo de Melo Costa, da UFCG, com participação da pesquisadora Dayanne Tomaz Casimiro da Silva, vinculada ao Laboratório de Síntese de Materiais Cerâmicos (LabSMaC/UFCG). Trata-se de estudo selecionado em edital do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), ação do Ministério da Saúde e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), executado na Paraíba pela Fundação de Apoio à Pesquisa da Paraíba (Fapesq) em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde, e apoio da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties).
A ideia é o desenvolvimento e validação inicial de um biossensor multifuncional, com ênfase na síntese dos nanomateriais (ferrita de cobalto associada a dióxido de titânio com prata), funcionalização com anticorpos anti-PGL-I, avaliação da eficiência de captura do analito e determinação de parâmetros analíticos de amostras simuladas, utilizando, principalmente, abordagem em suspensão, com quantificação por UV-Vis e ELISA indireto.
“Nosso projeto tem como objetivo o desenvolvimento de um biossensor multifuncional portátil para o diagnóstico rápido da hanseníase. Esse projeto é um trabalho coletivo construído por uma equipe comprometida e integrada especificamente na área da saúde, para atender às demandas do Sistema Único de Saúde”, explica Dayanne.
Embora a pesquisa ainda esteja na fase inicial de validação laboratorial, a equipe da UFCG já produz parte dos materiais utilizados no biossensor dentro do próprio laboratório, reduzindo custos e fortalecendo a produção científica local. A expectativa é que a nanotecnologia aplicada ao diagnóstico da hanseníase possa, futuramente, gerar uma ferramenta acessível ao SUS capaz de beneficiar especialmente populações periféricas e municípios com menos acesso a exames especializados.
A hanseníase é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo atingir pessoas de qualquer idade ou sexo. A infecção geralmente ocorre após contato próximo e prolongado com uma pessoa doente sem tratamento, embora apenas uma parcela dos indivíduos expostos desenvolva a doença. A transmissão acontece pelas vias aéreas superiores — por meio da fala, tosse ou espirro — e não pelo compartilhamento de objetos utilizados pelo paciente.
Considerada uma doença negligenciada, a hanseníase ainda representa um desafio relevante para a saúde pública, especialmente em regiões historicamente vulneráveis e com maior dificuldade de acesso ao diagnóstico precoce. De acordo com relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2025), o Brasil permanece como o segundo país com maior número absoluto de casos registrados, atrás apenas da Índia.
Segundo a pesquisadora Dayanne Casimiro, o projeto nasce da necessidade de aproximar o conhecimento científico das demandas reais da população atendida pelo SUS. Muitas pessoas evitam buscar ajuda por medo ou desinformação, o que pode atrasar o tratamento e favorecer a transmissão. O atraso no diagnóstico pode agravar sequelas físicas e ampliar a transmissão, tornando a detecção precoce um fator decisivo para reduzir impactos sociais e de saúde.
Mais do que financiamento científico, o investimento público também representa uma estratégia de fortalecimento da saúde coletiva. “O SUS precisa chegar a essa população de forma mais rápida. Se conseguimos diagnosticar cedo, conseguimos interromper a transmissão e iniciar o tratamento antes das sequelas”, destaca ela.
Para a pesquisadora, o investimento público em ciência tem impacto direto na qualidade da saúde coletiva. “Investir em ciência é investir em saúde pública. Quando o governo apoia pesquisas como essa, o conhecimento produzido dentro da universidade pode ultrapassar os muros acadêmicos e chegar à população que realmente precisa”, afirma. O projeto busca transformar conhecimento científico produzido na Paraíba em uma tecnologia com potencial de aplicação futura no SUS.
O Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS) é uma iniciativa criada para financiar estudos voltados às principais demandas da saúde pública. O objetivo é apoiar pesquisas capazes de gerar soluções práticas para problemas enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), aproximando universidades, ciência e necessidades reais da população.
