Barreira digital desafia moradores do Pilar no Recife Antigo

“Existe um muro aqui”, afirma Ana Cláudia Miguel, apontando para a Rua do Moinho, que separa a comunidade do Pilar do Porto Digital, um dos maiores polos de tecnologia do país, localizado no Recife Antigo. O muro, originalmente construído por holandeses no século 17 e demolido no final do século 19, ainda representa uma barreira, agora digital, segundo Ana Cláudia, líder comunitária da única área residencial do Recife Antigo.

Ana Cláudia destaca que, apesar de estarem no polo tecnológico, a comunidade enfrenta um déficit de tecnologia. O Pilar é uma comunidade de baixa renda, formada por pessoas que ocuparam as ruínas do Recife Antigo. Com cerca de 600 domicílios, a maioria das famílias é negra, chefiada por mulheres e depende do trabalho informal, com renda média de até um salário mínimo e meio, de acordo com pesquisa de 2023 apoiada pela Universidade das Nações Unidas.

Do outro lado da rua, o Porto Digital abriga mais de 500 empresas de tecnologia, com faturamento de R$ 7,4 bilhões em 2025. Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, descreve o local como uma plataforma de inovação, com incubadoras, uma faculdade própria e parcerias com universidades. A disparidade tecnológica entre os dois lados da rua evidencia o desafio da inclusão digital no Brasil.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-TIC) de 2026 revela que, embora 90,5% dos brasileiros usassem a internet em 2025, a qualidade do acesso é desigual. Muitos domicílios dependem exclusivamente de dados móveis, e a maioria não possui computadores ou tablets. Flávia Lefrève, especialista em telecomunicações, critica a limitação de dados móveis, considerada ilegal pelo Marco Civil da Internet.

No Pilar, a exclusão digital é evidente. Apesar do programa Pilar Universitário oferecer bolsas integrais no Senac, a falta de acesso à tecnologia dificulta a permanência dos estudantes. Eurídize Lima de Santana, uma jovem da comunidade, trancou a faculdade por não ter um computador. Ana Cláudia ressalta que a inclusão digital parcial é comum, com crianças sem acesso a tecnologias avançadas disponíveis no Porto Digital.

Fabi Andrade, coordenadora de ESG do Cesar, relata o desconforto com a desigualdade visível entre o Porto Digital e a comunidade do Pilar. O prédio do Cesar, modernizado para empresas de tecnologia, inicialmente previa uma parede para ocultar a comunidade, mas optou-se por uma parede de vidro. Pierre Lucena reconhece a dívida social e a necessidade de soluções organizadas.

Ana Cláudia alerta para o impacto da exclusão digital, com jovens da comunidade sendo atraídos para o mundo ilícito por falta de oportunidades. Flávia Lefrève aponta que o uso da internet no Brasil é predominantemente para redes sociais, devido a planos de dados limitados, o que viola a neutralidade da rede prevista no Marco Civil da Internet.

Em 2023, a Coalizão de Direitos da Rede abriu um processo administrativo contra o bloqueio de internet pelas provedoras e a quebra da neutralidade da rede. O Ministério da Justiça foi contatado sobre o andamento do processo, mas não houve resposta.

Fonte: Agência Brasil

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