O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta segunda-feira (20) o arquivamento da investigação aberta contra o ex-presidente Jair Bolsonaro pelo uso ilegal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante seu governo.
Na decisão, o ministro seguiu parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) e entendeu que Bolsonaro já foi condenado pelos fatos relacionados ao monitoramento ilegal de autoridades públicas. No processo da trama golpista, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, pena que também levou em conta essa acusação.
Moraes determinou ainda que as acusações contra Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente, sejam enviadas para a Justiça Federal no Distrito Federal. Durante as investigações, a Polícia Federal (PF) apurou a suposta ligação do chamado “Gabinete do Ódio” com o caso Abin Paralela.
Arquivamento
Na mesma decisão, o ministro determinou o arquivamento das investigações contra o ex-diretor-geral da Abin Luiz Fernando Corrêa, o ex-diretor adjunto Alessandro Moretti, o ex-corregedor José Fernando Moraes Chuy, e o ex-coordenador de operações Lucio de Andrade Parente. Para Moraes, não há indícios para o prosseguimento da investigação criminal.
“As imputações formuladas limitam-se à enunciação de conclusões genéricas acerca de suposta participação dos requeridos em atos de embaraço à investigação, sem a individualização concreta das respectivas condutas e sem a demonstração mínima dos elementos necessários à configuração de fato penalmente relevante”, afirmou o ministro.
Com a decisão, a PF deverá cancelar os indiciamentos desses investigados.
Além do desfecho judicial, o caso expõe a dimensão operacional da chamada “Abin paralela”: perícias da PF apontaram 60.734 consultas no sistema First Mile entre fevereiro de 2019 e abril de 2021, com 30.344 ocorrendo no período eleitoral de 2020, o que sugere uso intensivo da estrutura de inteligência em contexto politicamente sensível. Em termos institucionais, esse tipo de monitoramento ilegal tende a produzir efeito mais amplo do que a responsabilização criminal individual, porque corrói a confiança em órgãos de Estado que deveriam atuar com neutralidade e controle estrito.
Há também um impacto econômico e administrativo pouco discutido: a recuperação de 120 GB de documentos pela CGU indica que a eventual reorganização, auditoria e recomposição de mecanismos de controle sobre a Abin exigirão tempo e custo político relevantes, além de revisão de protocolos internos e de governança. Em democracias consolidadas, escândalos de vigilância estatal costumam acelerar mudanças regulatórias e ampliar o escrutínio sobre inteligência pública; no Brasil, a extensão desse legado ainda será medida pela capacidade de impedir que estruturas paralelas se reproduzam em futuros governos.
Este conteúdo baseia-se na reportagem original da Agência Brasil e inclui informações e perspectivas adicionais. Link para reportagem original.
