Água, segurança, saúde e acusações cruzadas: como foi o debate da Rede Ita entre os candidatos ao Governo da Paraíba na última quarta-feira (26)

Campina Grande, 26 de agosto de 2026 — Os três principais candidatos ao Governo da Paraíba, Cícero Lucena (MDB), Efraim Filho (PL) e o governador Lucas Ribeiro (PP), se enfrentaram na noite desta quarta-feira num debate promovido pela Rede Ita, transmitido ao vivo de Campina Grande, no Agreste paraibano — o primeiro debate da campanha sediado fora de João Pessoa. A mediação foi da jornalista Milena Souza, e o encontro foi dividido em quatro blocos: apresentações iniciais, perguntas sorteadas por temas, confronto direto com temas livres e considerações finais. A ordem de fala de cada rodada foi definida por sorteio prévio, com participação das assessorias dos três candidatos. O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, com um eventual segundo turno em 25 de outubro.

Foto: Print YouTube/Jornalismo Ita

Ao longo de quase duas horas, os candidatos alternaram propostas e ataques pessoais, e boa parte do debate girou em torno de disputas específicas de Campina Grande — sinal do palco escolhido. A seguir, os principais pontos abordados, organizados por tema.

Recursos hídricos

Efraim Filho abriu o bloco de temas sorteados questionando Cícero Lucena sobre a baixa capacidade de armazenamento de água do estado, lembrando que a Paraíba teria construído apenas cerca de oito barragens nos últimos 16 anos. Cícero respondeu citando sua atuação como ex-ministro na criação do projeto de transposição do eixo leste do Rio São Francisco, que segundo ele viabilizou a perenização do Rio Paraíba, e defendeu a necessidade de uma nova adutora de Boqueirão. Citou ainda o caso do município de Juazeirinho, que segundo ele não teria rede de abastecimento de água, chamando a situação de “inadmissível”, e prometeu “água na torneira de todas as casas do paraibano”.

Efraim replicou classificando a adutora do Cariri como uma obra que “anda a passos de tartaruga” e cobrando a conclusão do ramal do Piancó, terceiro eixo da transposição. Cícero, na tréplica, resumiu sua posição: “projeto, se não for executado no tempo certo, com velocidade, com competência e com eficiência, não mata a sede de ninguém.”

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Geração de emprego e renda

Questionado por Cícero sobre suas propostas concretas para o emprego jovem, Lucas Ribeiro citou o programa Conexão Mundo, de intercâmbio estudantil para a rede pública (mencionou estudantes que foram à Irlanda, ao Canadá e ao Chile), e o programa Primeira Chance, de bolsas de estágio remunerado em empresas parceiras. Citou também dados do Caged sobre geração de emprego nos últimos meses e projetos como o Polo Turístico Cabo Branco, o Centro de Convenções de Campina Grande, o Arco Metropolitano de João Pessoa e a ampliação do distrito industrial de Campina Grande, com investimento que classificou em mais de R$ 40 milhões.

Cícero rebateu dizendo que o governador “falou apenas de João Pessoa e Campina” e cobrou descentralização do desenvolvimento para o restante do estado. Na tréplica, Lucas citou o Complexo Científico do Certam, em Aguiar, onde está sendo instalado um radiotelescópio (projeto batizado de BINGO) em parceria com universidades — entre elas, segundo ele, a Universidade La Salle de Barcelona —, associado a uma futura “cidade da astronomia” e a uma rota turística que incluiria o Vale dos Dinossauros e o Museu de Arqueologia de Cajazeiras.

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Educação

Lucas Ribeiro questionou Cícero sobre infraestrutura escolar, citando um investimento que classificou em mais de R$ 450 milhões em 2025 e obras em Campina Grande, como a reforma do Colégio Estadual da Prata e a reconstrução do CAIC José Jofre. Cícero respondeu apontando que a última greve da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) ocorreu durante a gestão da qual Lucas fazia parte, como vice-governador, e citou o caso, amplamente divulgado nas redes sociais, de um estudante que teria ficado seis meses sem professor de português às vésperas do Enem. Cobrou ainda a convocação de concursados da área de educação, afirmando que o concurso havia sido “jogado para novembro, para depois do voto”, e criticou o que chamou de nomeações para os “marajás do contracheque”.

Na réplica, Lucas afirmou que a autonomia da UEPB foi respeitada por seu governo, citou o que descreveu como o sexto maior salário de professor do país, um recorde de crescimento no Ideb em agosto e o recebimento de um “selo ouro” de alfabetização na idade certa. Cícero, na tréplica, insistiu que o governador não havia respondido sobre a greve na UEPB, citou dados segundo os quais a Paraíba seria o terceiro estado em taxa de analfabetismo e defendeu a Clínica Escola Afeto, de Campina Grande — uma parceria entre prefeitura e governo estadual para atendimento a crianças atípicas que, segundo ele, o atual governo teria deixado de apoiar.

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Segurança pública

Cícero cobrou de Lucas por que a Paraíba mantém, segundo ele, o segundo pior salário de polícia militar do país — pergunta que já havia feito no debate anterior, do qual o governador não participou. Lucas respondeu citando um reajuste de cerca de 20% em algumas categorias neste ano, a inauguração da Policlínica Integrada da Segurança Pública e leis de organização básica da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros.

Ainda dentro da resposta, Lucas criticou o que chamou de herança de precariedade de gestões passadas (“quando o policial precisava empurrar a viatura”) e voltou o ataque para a gestão de Cícero à frente da Prefeitura de João Pessoa, afirmando que a Guarda Civil Municipal da capital — sob a administração municipal de Cícero — recebe “um dos piores salários do país”. Na réplica, Cícero rebateu, afirmando que João Pessoa está entre os melhores salários de guarda municipal entre as capitais do país, e devolveu a cobrança sobre o segundo pior salário do país pago à Polícia Militar sob o governo de Lucas, além de acusar sua gestão de ter rompido a paridade entre a Polícia Militar e a Polícia Civil ao reajustar delegados sem estender o mesmo benefício aos coronéis.

Foi nessa troca que Lucas anunciou as principais medidas de segurança da noite: a criação do Batalhão de Policiamento Rodoviário da Polícia Militar, com prioridade para o reforço das divisas do estado no combate ao crime organizado e às facções criminosas, e a expansão dos Centros Integrados de Comando e Controle (CICCs) — hoje instalados em João Pessoa, Campina Grande e Patos — para os municípios de Guarabira e Cajazeiras.

Saneamento e a Cagepa

Um dos embates mais tensos da noite girou em torno do contrato de parceria público-privada (PPP) para ampliação do esgotamento sanitário em 85 municípios, assinado pelo atual governo. Questionado por Lucas sobre como pretendia cumprir metas de universalização do saneamento caso mudasse esse contrato, Efraim Filho afirmou que faria uma revisão por considerar o processo “nocivo” e questionou o modelo do leilão, no qual apenas uma empresa — de origem espanhola, que segundo ele já teria sido condenada por improbidade e corrupção em seu país de origem — teria participado, com deságio mínimo de 1%. Efraim insinuou que a falta de concorrência resultaria em contas de água mais caras para o consumidor e questionou por que o processo não teria sido debatido publicamente antes da decisão. Reafirmou, porém, que manteria a Cagepa pública e classificou o atual governo como um “governo que nasceu sob suspeita”.

Lucas rebateu classificando as afirmações de Efraim como mentiras, negou que a Cagepa fosse privatizada e disse que a empresa “continua pública e do povo paraibano”, ao mesmo tempo em que descreveu os dois adversários como “uma união de duas pessoas que na verdade são uma só”. Na tréplica, Efraim mudou o eixo da resposta para Campina Grande, afirmando que a Cagepa havia paralisado obras da estação de tratamento de esgoto da cidade, cujo despejo, segundo ele, seguiria sem tratamento até o Rio Bodocongó e o Rio Paraíba, afetando municípios do Vale do Paraíba. Efraim disse haver procedimento aberto no Ministério Público Federal sobre o caso e classificou a situação como “crime contra o cidadão paraibano” — afirmações que não foram verificadas de forma independente durante o debate.

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Saúde

Questionado por Efraim sobre o que chamou de “caos” na saúde estadual — citando um vídeo que viralizou nas redes mostrando uma mãe pedindo um lençol para a filha em um corredor de hospital —, Cícero atribuiu a responsabilidade ao governo estadual, que segundo ele sobrecarrega polos como Campina Grande e João Pessoa. Prometeu a criação de três UPAs estadualizadas em Campina Grande (nos bairros que citou como Luísio Campos, na zona leste e no Bodocongó) e mais financiamento à prefeitura para a média e alta complexidade.

Efraim rebateu dizendo que o governo estadual não tem sido parceiro de Campina Grande “há 16 anos” — incluindo as gestões anteriores de Ricardo Coutinho e João Azevedo — e emendou uma crítica à saúde de João Pessoa sob a gestão de Cícero, citando reclamações sobre o hospital de trauma da capital. Na tréplica, Cícero citou uma fila de cirurgias cardíacas agendadas, segundo ele, até abril de 2027 no Hospital Metropolitano de Santa Rita, atrasos em pagamentos de prestadores do programa PB Saúde desde abril e voltou a cobrar a convocação de concursados da área, em vez do que classificou como contratações por indicação política.

O confronto direto: saúde em Campina, obras e a acusação de “carona”

No bloco de perguntas livres, Lucas questionou Cícero sobre a situação da Clipse — hoje 100% SUS, segundo o governador — e sobre o Hospital da Mulher, obra em construção em Campina Grande que classificou como a maior do estado. Cícero devolveu perguntando por que o governo não paga uma dívida de cerca de R$ 10 milhões relativa ao Samur com a prefeitura de Campina Grande e por que não veio a demora do próprio Hospital da Mulher, prometido para 18 meses em 2022 e, segundo ele, agora previsto para 2027. Citou ainda que o Hospital da Mulher Edson Ramalho, em João Pessoa, teria atendido menos pacientes nos primeiros quatro meses do ano do que a maternidade Cândida Vargas, de porta aberta. Na tréplica, Cícero insinuou — sem apresentar prova durante a fala — que a gestão da Clipse teria sido direcionada para resolver “um problema de familiar” do governador, citação que o debate não permitiu apurar no momento.

Em outra rodada, Cícero perguntou a Lucas “o que ele fez” pela cidade de Guarabira, terra natal do ex-governador Ronaldo Cunha Lima — pergunta que pareceu supor uma naturalidade de Lucas na cidade. Lucas respondeu detalhando sua trajetória política em Campina Grande (vereador, secretário de Ciência e Tecnologia, vice-prefeito, vice-governador) e citou obras como a expansão da Avenida Floriano Peixoto, o Centro de Convenções, a estrada Galante–Ligeiro e o Restaurante Popular. Cícero replicou acusando o governador de “pegar carona” em obras — inclusive citando emendas parlamentares de cerca de R$ 50 milhões destinadas ao Centro de Convenções — e insistiu na pergunta sobre a naturalidade de Lucas.

Na tréplica, Lucas devolveu a acusação, afirmando que foi Cícero quem “pegou carona” em obras federais e estaduais durante seus mandatos à frente da Prefeitura de João Pessoa — citando o Polo Turístico Cabo Branco, o viaduto de Água Fria, o viaduto do bairro das Indústrias, a Ponte das Três Ruas e a ligação do Altiplano com a UFPB —, e listou o que classificou como obras paradas da gestão municipal, entre elas o Parque do Roger e um conjunto habitacional na Beira-Rio.

Inclusão e famílias atípicas

Questionado por Lucas sobre a assistência a famílias de crianças atípicas em Campina Grande, Efraim defendeu o trabalho da Clínica Escola Afeto, citando cerca de 6 mil crianças atendidas pela rede municipal contra, segundo ele, 1.400 pela rede estadual. Lucas rebateu classificando os dois adversários como alinhados entre si e reafirmou o compromisso de dobrar o atendimento do Centro de Atendimento ao Autista de Campina Grande, citando parceria com a pesquisadora Adriana Mello, ligada a estudos sobre o vírus zika. Na tréplica, Efraim defendeu a flexibilização de jornada de trabalho para mães atípicas e voltou a citar uma denúncia, que segundo ele está no Ministério Público Eleitoral, sobre contratação de cabos eleitorais no programa PB Saúde.

Carga tributária

Na vez em que lhe cabia questionar Cícero, Efraim atribuiu ao governo estadual — nominalmente a João Azevedo e ao atual governador Lucas Ribeiro — um aumento do ICMS que, segundo ele, teria saído de 17% para 20%, e desafiou Cícero a se comprometer com a redução de impostos caso eleito. Cícero defendeu a tese de que reduzir impostos pode aumentar a arrecadação, citando como exemplo reduções de ISS e ITBI aplicadas em João Pessoa durante sua gestão, e citou uma dívida ativa do estado que estimou em R$ 8 bilhões como resultado do que chamou de “perseguição” ao contribuinte. Efraim prometeu reduzir impostos e “desfazer” os aumentos atribuídos ao governo estadual.

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Direito de resposta negado

Ainda no terceiro bloco, a mediação informou que a equipe jurídica da Rede Ita havia indeferido um pedido de direito de resposta apresentado por Efraim Filho contra Lucas Ribeiro, por considerar que a expressão usada pelo governador — “oportunista” — configurava “juízo de valor e crítica política”, dentro dos limites do confronto de ideias, e não uma ofensa apta a justificar o direito de resposta.

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Considerações finais

Nas falas de encerramento, Cícero Lucena voltou a atacar Lucas Ribeiro por suas menções a facções criminosas ao longo do debate, sugerindo que o público pesquisasse notícias recentes sobre um secretário de sua gestão associado, segundo reportagens da imprensa paraibana, a relações com facções — acusação que não foi detalhada nem verificada durante o programa. Cícero reafirmou o compromisso de fazer “um governo eficiente” ao lado do vice Diogo Cunha Lima e pediu votos para “resgatar o protagonismo” de Campina Grande.

Lucas Ribeiro rebateu afirmando que, na prática, debatia com “uma pessoa só”, já que via Cícero e Efraim agindo de forma combinada, e sugeriu que o público pesquisasse os termos “Operação Território Livre” e “Operação Confraria” — nomes de investigações mencionadas em outros momentos da campanha em conexão com adversários. Listou como legado o resgate aeromédico de um paciente citado como “Cássio”, a existência de duas UTIs aéreas, a promessa de aquisição de um helicóptero com UTI para o estado e a criação de novos distritos industriais.

Efraim Filho usou boa parte de sua fala final para revidar o indeferimento do pedido de direito de resposta, chamando Lucas de “caroneiro e oportunista” e questionando sua trajetória política — lembrando que o governador nunca venceu uma eleição majoritária e chegou a cargos como a Prefeitura de Campina Grande e o próprio Governo do Estado por licenças de titulares (respectivamente Romero Rodrigues e Bruno Cunha Lima, na prefeitura, e João Azevedo, no governo). Efraim insinuou ainda que o tio do governador, o deputado federal Agnaldo Ribeiro, teria influência direta sobre decisões do governo — afirmação não comprovada durante o debate — e encerrou pedindo votos.

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Nota sobre a apuração: esta reportagem foi produzida a partir da transcrição integral do áudio do debate, obtida por ferramenta avançada de reconhecimento de voz. Falas foram reproduzidas com ajustes mínimos de pontuação e clareza para leitura, preservando o conteúdo e o sentido original; acusações feitas por um candidato contra outro ao longo do debate são atribuídas a quem as fez e não foram verificadas de forma independente nesta reportagem pelo Portal.

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