Banqueiro pagou hospedagem de luxo para Presidente da Câmara em Lisboa

O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, bancou diárias em um hotel de luxo em Lisboa para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos‑PB), em 2024, segundo a Polícia Federal (PF); o deputado afirma que “está tranquilo” e diz não ver irregularidade na viagem.

A seguir, a reportagem com base nas informações do G1 e de documentos da investigação.

O nome do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, entrou no centro das apurações da Polícia Federal sobre a relação de autoridades brasileiras com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Documentos enviados pelos investigadores ao Supremo Tribunal Federal (STF) apontam que Vorcaro pagou diárias em um hotel de luxo em Lisboa para o parlamentar paraibano durante viagem realizada em 2024.

Segundo o relatório da PF, a hospedagem de Motta na capital portuguesa foi custeada diretamente pelo banqueiro, dentro de um contexto que, de acordo com os investigadores, revela um padrão de “tratamento privilegiado” a políticos influentes. No mesmo conjunto de provas, a polícia descreve a proximidade de Vorcaro com o senador Ciro Nogueira (PP‑PI), citando suposto pagamento de viagens internacionais, hospedagens e refeições em hotéis de alto padrão para o ex-ministro da Casa Civil.

No caso específico de Lisboa, a PF rastreou despesas de diárias em hotel de luxo atribuídas a Hugo Motta, com valor de 3.155,71 euros – montante que, à cotação da época, corresponde a cerca de R$ 18,2 mil. A cifra se soma a outros gastos identificados em investigações paralelas sobre a atuação de Vorcaro, inclusive em benefício de Ciro Nogueira, que teria recebido do banqueiro pagamentos mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil, além de custeio de viagens a destinos como Paris, Nova York e a estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses.

Os investigadores sustentam que as despesas em Lisboa foram comprovadas por documentos de cobrança (invoices) e por mensagens obtidas em celulares de Vorcaro e de auxiliares. Nas conversas, o banqueiro trataria diretamente da reserva de suítes no Four Seasons Hotel Ritz Lisbon, um dos mais caros da cidade, para ele e para dois parlamentares identificados nas apurações como “Ciro” e “Hugo”.

Em uma das trocas de mensagens analisadas, Vorcaro orienta subordinados a reforçar a privacidade do grupo hospedado no hotel, demonstrando preocupação com a exposição pública da estadia. Para a PF, o conjunto de registros – reservas, notas fiscais e comunicações internas – forma um quadro consistente de que o banqueiro arcou com as despesas de hospedagem de autoridades em Lisboa.

Questionado por jornalistas nesta terça-feira (16) sobre o pagamento das diárias, Hugo Motta limitou-se a dizer que “está tranquilo”, declarando confiança no trabalho dos órgãos de investigação e afirmando defender uma apuração “isenta e imparcial”. O presidente da Câmara argumentou que a viagem ocorreu por ocasião de um evento corporativo e jurídico realizado na capital portuguesa e reiterou que não vê qualquer irregularidade em sua conduta.

“Os órgãos de fiscalização estão trabalhando, eu tenho tranquilidade sobre as minhas relações e defendo que as investigações possam acontecer”, afirmou o deputado, ao ser questionado sobre o custeio da hospedagem pelo banqueiro. Em outra declaração, Motta disse não enxergar “problema algum” no fato de ter participado do encontro em Lisboa, classificando-o como um evento corporativo que continuou a frequentar mesmo após assumir a presidência da Câmara.

Segundo o parlamentar, tratava-se de um fórum jurídico realizado na cidade, que reúne autoridades brasileiras e estrangeiras, e cujo caráter institucional justificaria a presença de representantes do Congresso. Para ele, o simples pagamento da hospedagem por um empresário não configuraria, por si só, irregularidade, desde que não haja contrapartida ilícita ou favorecimento em decisões do Legislativo.

Do outro lado, a PF coloca o episódio dentro de um contexto mais amplo. Nos documentos enviados ao STF, os investigadores descrevem uma rede de relações entre Vorcaro e figuras centrais da política, na qual benefícios pessoais – como passagens, hotéis de luxo e pagamentos periódicos – seriam usados para estreitar laços e garantir interlocução junto ao poder público. Em mensagens apreendidas em outra frente da investigação, o banqueiro se refere a Hugo Motta como “amigo” e relata encontros com o presidente da Câmara, com Ciro Nogueira e com o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Apesar da ênfase da PF na proximidade entre o ex-dono do Banco Master e políticos de alto escalão, as apurações ainda estão em curso, e não há decisão judicial que ateste a prática de crime por parte de Hugo Motta no episódio da viagem a Lisboa. Até o momento, a defesa do deputado não apresentou esclarecimentos detalhados sobre quem autorizou ou acertou o pagamento das diárias, limitando-se a reforçar a tese de que a participação em eventos internacionais faz parte da agenda institucional da Câmara.

O senador Ciro Nogueira, citado reiteradamente nos relatórios da PF como beneficiário de viagens e pagamentos custeados por Vorcaro, ainda não se manifestou sobre o caso. A investigação, conhecida como Caso Master, segue sob supervisão do STF e pode ter desdobramentos na esfera criminal e também política, dado o peso dos cargos ocupados pelos envolvidos.

Enquanto a Polícia Federal avança na análise de mensagens, documentos financeiros e registros de viagens, o episódio das diárias de hotel em Lisboa lança novas dúvidas sobre a fronteira entre relações pessoais, participação em eventos corporativos e possíveis conflitos de interesse no topo da República. Hugo Motta aposta na estratégia de demonstrar serenidade e confiança nas instituições; caberá aos investigadores e à Justiça delimitar se o custeio da hospedagem por um banqueiro com interesses no sistema financeiro extrapolou o campo da mera cortesia e ingressou na zona de benefícios indevidos.

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