Uma corrente que circula em redes sociais atribui ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), a responsabilidade pela suposta “fuga” de 232 empresas do Brasil para o Paraguai. A postagem afirma que essa migração empresarial teria ocorrido em razão da política econômica do governo Lula e da atuação de Haddad na pasta. Segundo checagem do Fato ou Fake, serviço de verificação de notícias do Grupo Globo, a alegação é falsa.
Embora a postagem traga números e mencione decisões empresariais reais de instalação de fábricas no Paraguai, ela distorce dados, mistura períodos de governo diferentes e ignora o contexto tributário e regulatório que explica esses movimentos. A narrativa tenta associar de forma direta e exclusiva as decisões de investimento ao período em que Haddad está à frente do Ministério da Fazenda, mas os dados oficiais e fontes do próprio setor produtivo não sustentam essa conclusão.
Especialistas ouvidos na checagem apontam que a atração de empresas brasileiras pelo Paraguai é um fenômeno que vem de anos, vinculado principalmente ao regime de maquila (modelo de incentivos fiscais e trabalhistas paraguaios) e ao custo de produção mais baixo naquele país, e não a uma mudança específica e recente de política econômica em Brasília. A decisão de empresas de se instalar ou ampliar atividades fora do Brasil, ressaltam economistas e representantes do setor industrial, costuma estar ligada a um conjunto amplo de fatores: carga tributária, custo de energia, legislação trabalhista, câmbio, logística, segurança jurídica e previsibilidade regulatória.
A checagem mostra ainda que o número de “232 empresas” é utilizado de forma enganosa. O montante faz referência a um total de empreendimentos brasileiros ou com participação brasileira registrados em programas de incentivo no Paraguai ao longo de vários anos, atravessando governos de diferentes orientações políticas no Brasil. Não há evidência de que todas essas empresas tenham “fugido” do país, nem de que tenham encerrado completamente suas operações em território brasileiro para migrar integralmente ao país vizinho.
Outro ponto questionado por economistas é o uso do verbo “fugir”. A maior parte dos casos, segundo relatos do setor, envolve estratégias de internacionalização e diversificação de plantas produtivas, e não a simples transferência integral das operações. Muitas empresas que abrem unidades no Paraguai mantêm atividades no Brasil, inclusive para abastecer o mercado interno brasileiro.
Ao analisar o conteúdo que viralizou, o Fato ou Fake destaca que a peça de desinformação segue um roteiro já conhecido: usa um dado numérico que possui alguma ancoragem em fatos, porém retira-o do contexto, exagera suas implicações e atribui culpa personalizada a um ator político, nesse caso Haddad, a fim de alimentar uma narrativa de fracasso econômico e desgaste do governo federal.
A checagem conclui que:
- Não há base em dados oficiais ou em estudos setoriais que comprove a suposta fuga de 232 empresas do Brasil para o Paraguai durante a gestão de Fernando Haddad.
- O movimento de empresas brasileiras buscando vantagens no Paraguai é anterior ao atual governo e não pode ser atribuído a uma única gestão.
- A mensagem que circula nas redes é classificada como #FAKE, por distorcer números, manipular o contexto temporal e sugerir uma relação causal que não é sustentada por evidências.
O caso se soma a uma série de desinformações econômicas que circulam em períodos de acirramento político, em que dados sobre investimentos, emprego e indústria são frequentemente utilizados para atacar ou defender governos, muitas vezes sem o devido rigor estatístico ou respeito à cronologia dos fatos.