Por Portal NegoPB | 23 de setembro de 2026
Faltando poucos dias para as eleições presidenciais, o jornal O Estado de S. Paulo publicou nesta quarta-feira (23 de setembro de 2026) um contundente editorial intitulado “Flávio e a sombra dos milicianos“. O texto faz um alerta sobre os perigos associados à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, resgatando suas antigas e recentes ligações com grupos paramilitares do Rio de Janeiro. Escolhido para encabeçar o projeto político da família após a prisão e inelegibilidade de seu pai, Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de estado, Flávio desponta como um candidato que tem se mostrado perigosamente competitivo nas pesquisas de intenção de voto, despontando à frente do atual presidente Lula em cenários do 2º turno, como mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
A publicação do jornal paulista ganha forte relevância ao pautar, no debate público nacional, o impacto que a ascensão do crime organizado pode ter sobre o cargo mais importante da República.
O posicionamento do Estadão vem após a apuração, divulgada pelo próprio jornal e pela Revista Piauí na véspera, revelando que uma assessora lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro negociou pessoalmente o repasse de quase R$ 200 mil em emendas parlamentares em 2023 com Robson Calixto, o “Peixe”. Condenado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro de 2026, a nove anos de prisão em regime fechado por integrar a organização criminosa que participou dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A Polícia Federal investiga o caso em meio a indícios de que os recursos, destinados a um instituto sob influência dos irmãos Brazão, mandantes do assassinato, sofreram desvios.
No editorial, o Estadão classifica como “extremamente preocupante” o fato de um presidenciável com chances reais de vitória ter mantido laços tão recentes com um indivíduo condenado por derramamento de sangue. A postura do candidato diante do escândalo foi alvo de duras críticas por parte do jornal. Em nota oficial, Flávio argumentou que o envio da emenda seguiu os trâmites da legislação e que a responsabilidade pela prestação de contas recai exclusivamente sobre quem recebe a verba. Para a publicação, essa reposta é meramente protocolar e o senador deixou de dar as satisfações devidas aos eleitores sobre sua proximidade escabrosa com o miliciano condenado.
O Estadão não trata o episódio como um evento isolado, mas sim como a continuidade de um traço fundamental na biografia política do candidato. O veículo relembra a defesa explícita de grupos paramilitares feita por Flávio Bolsonaro desde o início de seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), em 2003. Em 2007, discursando na Alerj, ele legitimou a atuação das milícias, classificando-as como um “novo tipo de policiamento”, e tentou reduzir os crimes por elas praticados a “casos isolados”. Na época, Flávio declarou que não se incomodaria em pagar uma mensalidade de R$ 30 ou R$ 40 para esses criminosos em troca de segurança.
O editorial avança ao demonstrar que, além da defesa teórica, as relações de Flávio com criminosos envolveram alocações institucionais graves. O Estadão pontua que o candidato já condecorou dezenas de membros desses grupos armados e empregou, com dinheiro público, familiares do ex-policial Adriano da Nóbrega. Morto em 2020 durante confronto armado na Bahia, Nóbrega atuou como chefe do grupo de matadores de aluguel Escritório do Crime, o temido grupo de extermínio fundado em Rio das Pedras.
O Jornal não deixa de reconhecer o direito assegurado pela Constituição a cada cidadão de votar no postulante que desejar dentre os devidamente registrados na Justiça Eleitoral, mas considera como relevante o farto histórico da associação do candidato ao terror da milícia carioca. O Estadão finaliza afirmando, de forma inequívoca, que a eventual eleição de Flávio Bolsonaro “embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”.
A imprensa tradicional finalmente traçou uma linha clara sobre os riscos que a normalização das relações com o crime organizado impõe ao futuro das instituições políticas e democráticas do país? O Estadão teria abandonado a candidatura de Flávio de Bolsonaro?