Novas diretrizes recomendam semaglutida e tirzepatida como primeira opção para tratar obesidade

Uma nova diretriz internacional do American College of Physicians (ACP) passou a recomendar os medicamentos semaglutida e tirzepatida como primeira opção farmacológica para o tratamento da obesidade, sempre em conjunto com mudanças de estilo de vida.

A orientação, publicada na revista científica Annals of Internal Medicine, é voltada a médicos generalistas e internistas e consolida uma virada no tratamento da doença: pela primeira vez, fármacos que imitam hormônios intestinais ligados à saciedade — as chamadas “canetas” — ocupam o topo da hierarquia terapêutica.

O que muda na prática clínica

A diretriz do ACP organiza o tratamento medicamentoso da obesidade em níveis de prioridade, levando em conta IMC, presença de doenças associadas e o desempenho clínico dos remédios.

  • Para adultos com obesidade (IMC ≥ 30):
    • 1ª opção: semaglutida ou tirzepatida.
    • 2ª opção: combinação fentermina–topiramato.
    • 3ª opção: liraglutida.
    • 4ª opção: associação naltrexona–bupropiona.
  • Para pessoas com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) e ao menos uma doença associada — como diabetes tipo 2, colesterol alterado, hipertensão, apneia do sono ou doença cardiovascular — a recomendação é:
    • 1ª escolha: semaglutida ou tirzepatida.
    • 2ª escolha: liraglutida.

Segundo o documento, o tratamento medicamentoso não substitui as mudanças de estilo de vida, mas as complementa: dieta equilibrada, atividade física regular, sono adequado e abordagem comportamental continuam como pilares.

Por que semaglutida e tirzepatida foram colocadas na frente

O ponto central que sustenta a nova diretriz é a eficácia sem precedentes desses medicamentos na perda de peso e no controle de doenças associadas à obesidade.

  • Estudos citados pelo ACP mostram que um único medicamento, nas doses adequadas, faz cerca de 9 em cada 10 pessoas atingir uma perda de pelo menos 5% do peso corporal, patamar considerado clinicamente relevante.
  • A tirzepatida, em especial, vem se destacando nos ensaios clínicos de comparação direta.

Na primeira comparação direta entre semaglutida e tirzepatida, o estudo SURMOUNT-5, em pessoas com obesidade e sem diabetes, encontrou:

  • Tirzepatida: perda média de cerca de 20% do peso em 72 semanas.
  • Semaglutida: perda média de aproximadamente 14% do peso no mesmo período.

Os dois medicamentos pertencem à família dos fármacos que imitam hormônios intestinais ligados à saciedade e ao controle do apetite, promovendo sensação de plenitude e redução da ingestão calórica. São administrados por via injetável subcutânea, em doses semanais.

Segurança cardiovascular e impacto além da balança

Além da perda de peso, a diretriz leva em conta os efeitos cardiometabólicos dos medicamentos.

  • A semaglutida já havia demonstrado benefícios cardiovasculares e segurança em pessoas com diabetes tipo 2 em estudos anteriores.
  • No final de 2025, o estudo SURPASS-CVOT avaliou a tirzepatida em pacientes de alto risco com diabetes e mostrou que o medicamento foi tão seguro para o coração quanto a dulaglutida, um agonista de GLP-1 com benefício já estabelecido.
    • Nesse estudo, a tirzepatida ainda foi associada a uma redução de 16% na mortalidade geral em comparação com a dulaglutida.

Esses resultados reforçam a ideia, defendida por especialistas, de que os novos fármacos contra obesidade não atuam apenas no peso, mas também reduzem o risco de complicações como infarto, AVC e morte por causas cardiovasculares em populações de alto risco.

Como fica o cenário brasileiro

A diretriz do ACP é americana, mas dialoga com um movimento que já vinha ocorrendo no Brasil.

Em 2025, cinco entidades brasileiras publicaram em conjunto uma diretriz nacional que também colocava semaglutida e tirzepatida no centro do tratamento da obesidade:

  • Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso)
  • Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
  • Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC)
  • Academia Brasileira do Sono (ABS)

Esse alinhamento reforça uma convergência internacional: grandes sociedades científicas de diferentes países passam a enxergar a obesidade como doença crônica complexa, que exige tratamento contínuo e, em muitos casos, uso prolongado de medicação com alto impacto clínico.

No Brasil, entretanto, especialistas destacam desafios adicionais, como custo elevado dos medicamentos, acesso desigual entre pacientes do sistema público e privado e a necessidade de capacitação de médicos generalistas para o manejo correto das novas drogas.

Escolha do medicamento: eficácia, custo e perfil do paciente

Apesar de semaglutida e tirzepatida serem destacadas como primeira opção, a diretriz e os especialistas ressaltam que não existe uma solução única para todos.

A seleção do fármaco deve considerar:

  • Eficácia desejada (quantidade de perda de peso necessária ou esperada).
  • Custo e possibilidade de manter o tratamento a longo prazo.
  • Histórico clínico do paciente (comorbidades, uso de outros medicamentos, risco cardiovascular, histórico de transtornos psiquiátricos).
  • Preferência do paciente, após esclarecimento sobre efeitos, forma de aplicação e expectativas realistas.

“A escolha passa pela eficácia que se busca, pelo custo do tratamento, pelo histórico do paciente e pela preferência dele”, resume um dos especialistas ouvidos na reportagem.

Ainda que tirzepatida tenha mostrado maior perda de peso média em estudos como o SURMOUNT-5, profissionais lembram que tolerância, efeitos adversos gastrointestinais e contraindicações podem fazer com que, para determinados pacientes, a semaglutida ou mesmo outros fármacos continuem sendo opções adequadas.

Obesidade como doença crônica e o papel das diretrizes

As novas recomendações reforçam uma mudança de paradigma: a obesidade deixa de ser vista apenas como resultado de “força de vontade” e passa a ser encarada, de forma mais ampla, como doença crônica multifatorial, influenciada por genética, ambiente, comportamento e fatores socioeconômicos.

Diretrizes como a do ACP e as emitidas por entidades brasileiras têm três efeitos principais:

  • Orientar médicos generalistas, que são a porta de entrada do sistema de saúde, sobre quando e como prescrever medicamentos para obesidade.
  • Padronizar condutas, reduzindo variações extremas entre profissionais e serviços.
  • Dar lastro científico para políticas públicas e decisões de cobertura por planos de saúde, ao basear recomendações em grandes ensaios clínicos e metanálises.

Ao colocar semaglutida e tirzepatida no topo da hierarquia terapêutica, a nova diretriz consolida, na prática clínica, a transição para uma nova geração de tratamentos, com maior impacto na perda de peso, melhor controle de comorbidades e potencial de redução de risco cardiovascular, mas que também levanta debates sobre acesso, custo e uso responsável em sistemas de saúde públicos e privados.

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