Apuração de João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires, publicada pela revista em 21 de outubro de 2026, descreve um passeio de lancha durante a pandemia e levanta perguntas sobre relações entre o senador e empresários interessados em negócios com o governo federal.
No dia 17 de julho de 2020, enquanto o Brasil enfrentava uma das fases mais graves da pandemia de Covid-19, o senador Flávio Bolsonaro participou de um churrasco em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília. A embarcação, segundo reportagem da Piauí, reuniu o senador, seu amigo e sócio Alexandre Santini, empresários ligados à Precisa Medicamentos e três garotas de programa levadas de São Paulo.
A história foi reconstruída pelos jornalistas João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires. Em “Uma tarde no lago”, publicada em 21 de outubro de 2026, a revista relata que Danilo Trento e Francisco Maximiano — então diretor institucional e proprietário da Precisa — buscavam ampliar os negócios da empresa com o governo Bolsonaro. A Precisa dizia representar a Bharat Biotech, fabricante indiana da vacina Covaxin, e negociava a venda do imunizante ao Ministério da Saúde.
A reportagem reconstitui a viagem dos empresários a Brasília, o encontro na lancha e a presença de Flávio Bolsonaro. De acordo com a piauí, após o passeio Trento colocou um relógio Rolex no pulso do senador, que deixou o local usando o presente. A revista afirma ter cruzado informações de sigilos bancários enviados a CPIs, registros de voos, entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas aos episódios. Um dos relatos sobre a festa foi dado sob condição de anonimato.
O contexto da negociação da Covaxin já havia sido objeto de atenção da CPI da Pandemia. A comissão investigou suspeitas relacionadas ao processo de compra da vacina, e seu relatório final recomendou o indiciamento de Flávio Bolsonaro, Trento e Maximiano. Essa recomendação não equivale a condenação. O contrato da Covaxin acabou cancelado antes que o governo realizasse pagamentos.
A reportagem também relata que, meses depois do passeio, Flávio participou de uma reunião virtual entre Maximiano e o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano. O assunto era uma empresa de telecomunicações ligada ao empresário e a possibilidade de financiamento pelo banco. Segundo a revista, não houve contratação de financiamento. Flávio afirmou à época que apenas pediu ao presidente do BNDES que ouvisse uma proposta de levar internet às regiões Norte e Nordeste e negou manter relação comercial ou financeira com Maximiano.
O interesse público do episódio não está na vida privada dos participantes, mas nas conexões entre empresários que buscavam contratos ou apoio do poder público e um senador com acesso direto ao governo federal. A sequência descrita pela Piauí — a viagem, o encontro social, o presente e a reunião posterior no BNDES — suscita perguntas sobre a natureza dessas relações e sobre a fronteira entre convivência privada e influência política.
Procurado pela revista, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado até o fechamento da reportagem. Trento e Maximiano também foram procurados; segundo a Piauí, não responderam aos questionamentos enviados.
Este texto é uma síntese da reportagem original “Uma tarde no lago”, de João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires, publicada pela Revista Piauí. As informações e alegações acima são atribuídas à apuração da revista; a recomendação de indiciamento mencionada não representa uma condenação.