Considerada uma das regiões mais perigosas do Rio de Janeiro devido aos frequentes confrontos entre facções criminosas, o bairro da Cidade de Deus recentemente ganhou uma demonstração simbólica para alertar autoridades sobre a preservação da vida das famílias durante operações policiais intensas. Dias antes da deflagração da Operação Convenção, a ONG Nóiz instalou no telhado de sua sede uma faixa com a mensagem “Calma! Aqui tem sonhos, crianças e famílias”, em um apelo para que os ataques, inclusive os realizados por helicópteros, não atinjam o espaço onde crianças e moradores vivem e desenvolvem atividades.
A ONG Nóiz funciona desde 2018 no Karatê-Rocinha 2, região central da Cidade de Deus, e oferece diversas atividades para a comunidade local, incluindo dança contemporânea, balé, teatro, jiu-jitsu, reforço escolar, apoio à alfabetização, uma lan house social, biblioteca, atendimento psicológico e suporte para crianças autistas. Atualmente, cerca de 250 crianças estão cadastradas e aproximadamente 120 pessoas frequentam o local diariamente durante o horário de funcionamento que vai das 8h às 18h, de segunda a sábado.
O presidente da ONG, André Melo, destacou que a comunidade sempre viveu sob o temor de ser alvo de disparos vindos de helicópteros durante as operações policiais. Esse receio foi reforçado pelo fato de que, quatro anos atrás, disparos atingiram a sede da organização, destruindo uma caixa d’água. A faixa, portanto, foi uma forma de chamar a atenção das autoridades para uma região que, apesar da violência, abriga uma população que precisa ser protegida e considerada nos planejamentos das ações de segurança.
Paralelamente à situação da Cidade de Deus, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro vive um momento crítico de segurança pública: a Operação Contenção, deflagrada pelas polícias civil e militar no dia 28 de outubro, resultou em confrontos violentos em áreas como os Complexos do Alemão e Penha, com intensa mobilização de 2,5 mil policiais. A operação, que buscava cumprir cerca de cem mandados contra integrantes do Comando Vermelho, já contabiliza mais de 119 mortos – entre eles 115 civis e quatro policiais – e mais de 100 prisões, incluindo suspeitos de outros estados.
As ações policiais desencadearam um clima de pânico em vários bairros, com o bloqueio de vias, suspensão de atividades escolares e comerciais, além de relatos de bombardeios com drones e tiroteios intensos. Algumas vítimas civis foram atingidas por balas perdidas, e unidades de saúde tiveram de suspender atendimento devido às circunstâncias do conflito. O governador do Rio qualificou a operação como uma demonstração de força contra o crime organizado, enquanto especialistas, movimentos sociais, defensores dos direitos humanos e organismos internacionais criticam o alto número de mortos e a exposição da população aos riscos.
Diante do cenário de escalada da violência e da enorme letalidade das operações policiais, órgãos como a Comissão de Direitos Humanos do Senado anunciaram que vão investigar a ação, com foco especial na proteção dos moradores e das crianças das áreas afetadas. O debate público aponta para a necessidade de equilibrar a ação contra o crime com estratégias que priorizem os direitos humanos e reduzam o impacto sobre civis em áreas de conflito.
A iniciativa da ONG Nóiz de sinalizar o pedido de cuidado com a população da Cidade de Deus reflete o desafio cotidiano dessas comunidades, que enfrentam não apenas a violência das facções, mas também os efeitos colaterais das operações estatais voltadas à segurança pública. O apelo por “calma” é um lembrete da existência de vidas, sonhos e famílias que exigem atenção e respeito, mesmo em meio a um contexto marcado por intenso confronto armado.
