O sábado no Mineirão concentrou, em poucas horas, a euforia de um grande anúncio e a frustração de uma estreia amarga. Mais de 35 mil cruzeirenses receberam com festa o meia Gerson, tratado como reforço histórico do clube, mas deixaram o estádio sob vaias após a derrota por 2 a 1 para o Pouso Alegre, na abertura do Campeonato Mineiro e no primeiro jogo de Tite no comando celeste.
Antes da bola rolar, o clima era de celebração. Gerson foi ao gramado acompanhado de familiares e de Pedro Loureiro, principal acionista da SAF do Cruzeiro. Sob aplausos e cânticos das arquibancadas, vestiu a camisa 97, número que remete ao ano da conquista da última Copa Libertadores pelo clube, em 1997. Aos 28 anos, campeão de quase tudo pelo Flamengo e vindo do Zenit, da Rússia, o meio-campista assinou um vínculo longo, até 2030, em uma negociação tratada internamente como uma das maiores já realizadas por um time brasileiro. O ato simbólico no centro do campo integrou a estratégia do Cruzeiro de se recolocar entre os protagonistas nacionais por meio de investimentos altos e da presença constante do dono da SAF ao lado das principais estrelas.
Quando o jogo começou, a festa mudou de lado rapidamente. Logo aos quatro minutos, o Pouso Alegre aproveitou a desatenção da jovem defesa celeste e abriu o placar com Alexandre, silenciando o Mineirão. O Cruzeiro, escalado por Tite com uma formação alternativa, com muitos jogadores da base, reservas e atletas que retornaram de empréstimo, sentiu o golpe. A proposta do treinador, em seu primeiro compromisso oficial no clube, era observar o elenco e dar minutos em campo a quem vinha atuando menos, mas a falta de entrosamento apareceu em erros de marcação e em poucas conexões ofensivas consistentes.
Na segunda etapa, o time do interior ampliou a vantagem em um lance de forte simbolismo para o futebol nacional. Aos dez minutos, o meia Gabriel Tota marcou o segundo gol do Pouso Alegre em seu retorno aos gramados após dois anos e dois meses afastado por envolvimento em esquemas de manipulação de resultados. Sem atuar desde maio de 2023, quando defendia o Ypiranga-RS, Tota reapareceu em um grande palco, justamente contra um gigante do país, e deixou sua marca em pleno Mineirão, aumentando a pressão sobre o lado cruzeirense.
Tite tentou mudar o cenário com alterações ao longo do segundo tempo, adiantando as linhas e buscando maior presença no campo ofensivo. O Cruzeiro passou a rondar mais a área adversária, mas esbarrou na organização defensiva do Pouso Alegre e em problemas no último passe. Só nos acréscimos o time da casa conseguiu descontar, com o lateral Kauã Prates concluindo jogada pela esquerda. O gol tardio diminuiu o placar, mas não alterou o peso da derrota: a equipe não teve tempo de reagir e viu a estreia na temporada terminar com revés diante de sua torcida.
O resultado frustra o início da era Tite e contrasta com a demonstração de força fora de campo transmitida pela contratação de Gerson. Em uma mesma tarde, o Cruzeiro exibiu seu poder de investimento ao apresentar um reforço de renome internacional e mostrou fragilidades esportivas ao ser superado por um adversário de menor orçamento, ainda que em início de trabalho e utilizando uma equipe alternativa. A oscilação entre expectativa e decepção evidencia o tamanho do desafio do novo comando técnico: transformar a empolgação gerada no mercado em resultados consistentes dentro de campo, sob a vigilância de uma torcida que lota o Mineirão em busca de títulos e protagonismo.
Enquanto o Cruzeiro tropeçou na largada, a primeira rodada do Campeonato Mineiro teve outros capítulos importantes. Em Uberlândia, no Parque do Sabiá, Uberlândia e Tombense empataram em 0 a 0. Em Patos de Minas, URT e North também ficaram no 0 a 0 no Estádio Zama Maciel, em um início de temporada marcado por jogos equilibrados. Já em Nova Lima, no Estádio Castor Cifuentes, o Democrata venceu o Itabirito por 1 a 0, começando o Estadual com três pontos e aproveitando o vacilo de um dos grandes na primeira rodada.
Em São Paulo, a noite teve um duelo carregado de simbolismo entre as colônias portuguesa e italiana do estado. No Canindé, o Palmeiras levou a melhor sobre a Portuguesa e venceu por 1 a 0, em partida válida pela abertura do Campeonato Paulista. O gol saiu dos pés de Luighi aos sete minutos do segundo tempo, três minutos depois de o atacante Igor Torres, da Lusa, ser expulso, lance que modificou o jogo e deu mais controle ao time alviverde. Abel Ferreira optou por uma escalação mista, mesclando titulares e reservas, e promoveu a estreia do volante Marlon Freitas, ex-Botafogo, que iniciou seu processo de adaptação ao novo clube em uma partida de forte carga emocional para as duas torcidas.
Outro confronto da rodada colocou frente a frente tradição e novidade no futebol paulista. Em Campinas, no Brinco de Ouro da Princesa, Guarani e Primavera empataram em 1 a 1. O zagueiro Raphael Rodrigues abriu o placar para o Bugre aos 20 minutos da etapa final, alimentando a esperança de vitória diante de sua torcida. Nos acréscimos, porém, o atacante Josiel marcou aos 50 minutos e garantiu o primeiro gol do Primavera na elite do Paulistão, evitando a derrota e registrando um momento histórico para o clube de Indaiatuba em sua estreia na primeira divisão estadual.
Enquanto os estaduais voltam ao calendário, as cenas de Belo Horizonte e São Paulo mostram a combinação de grandes apresentações de reforços, resultados inesperados e tentativas de retomada de carreira. No Mineirão, a apresentação de uma grande contratação dividiu espaço com a surpresa de um resultado adverso e com a volta de um jogador que busca reconstruir a própria imagem. No Canindé e no Brinco de Ouro, clássicos de identidades, estreias e gols nos acréscimos deram contornos dramáticos às primeiras rodadas. As histórias que começam a ser escritas neste início de temporada incluem investimentos altos, retornos marcantes e surpresas em campo.
