Entender as bibliotecas como um espaço para além do acesso à informação, mas também como um lugar de conscientização e desenvolvimento do pensamento crítico, é o que levou a pesquisadora Luciane Cavalcante a criar o projeto Medeia.Info. Uma iniciativa de mediação cultural em bibliotecas, focada no enfrentamento a violência de gênero.
“A gente precisa entender que o acesso à informação tem que também vir potencializado de ferramentas para estruturar essa informação para um uso. Então, por exemplo, eu posso colocar livros que falam sobre feminicídio, que falam sobre violência, mas o que eu posso fazer de atividade dentro das bibliotecas?”, explicou a pesquisadora.
Com formação em biblioteconomia, Luciane Cavalcante conta que atuou como docente nos programas de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual de Londrina. Durante uma orientação, a pergunta de uma aluna sobre o papel das bibliotecas comunitárias no combate à violência de gênero a provocou.
“Foi nessa parte que eu comecei a me envolver com os estudos de gênero e com os estudos feministas, com as perspectivas latino-americanas em relação a essa questão. E, aí, eu comecei a envolver pesquisas para entender melhor o que as bibliotecas fazem em relação a isso”.
Bibliotecas escolares
As ações do projeto Medeia.Info incluem palestras, cursos e debates voltados a profissionais que atuam em bibliotecas e outros espaços culturais. A proposta é abordar como esses profissionais podem não apenas aprender a reconhecer as manifestações que compõem a violência de gênero como também a conduzir ações de combate e conscientização a partir da cultura.
Entre os jovens em idade escolar do sexo masculino, a disseminação de termos misóginos, popularizados na internet através de conteúdos masculinistas, vem ascendendo um alerta nas escolas. Essa ideologia, que prega a superioridade do homem dentro de uma “hierarquia social”, ganhou força no meio digital pela capacidade de mobilização e alcance da internet.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 83% das crianças e dos adolescentes de 9 a 17 anos que usam internet no país têm ao menos um perfil em redes sociais, e são alvos fáceis desse tipo de conteúdo, por ser um período importante para a formação da identidade e da consciência.
Luciane Cavalcante conta que um dos trabalhos realizado nos projetos é voltado justamente a bibliotecas escolares, pensando em atividades e mediações para crianças e adolescentes que estimulem a participação e a conscientização social também por meios lúdicos.
“Hoje, com a questão dos jogos digitais, os adolescentes são muito chamados a isso. Então, por exemplo, por que não colocar para os adolescentes para criarem um jogo de enfrentamento?”, diz ela, mas pontua que a falta de recursos de muitos espaços é um desafio para o projeto.
“No contexto escolar, infelizmente, muitas bibliotecas ainda são relegadas, então, é importante também essa construção conjunta disso. Trabalhar com as crianças é importantíssimo, mas o bibliotecário não vai conseguir fazer isso sozinho”.
Inciativa Medeia.Info
O projeto é vinculado ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (BICT), com apoio de outras instituições, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Nas redes sociais, o principal trabalho é a democratização de pesquisas, traduzindo artigos acadêmicos complexos para uma linguagem clara e contemporânea, com o apoio de profissionais do serviço social, da psicologia e do direito. Já presencialmente, o projeto realiza cursos de extensão e outras ações na Biblioteca Parque Estadual, no centro do Rio de Janeiro.
“A ideia é expandir para outras bibliotecas, trabalhar em parcerias com bibliotecas escolares, com universitárias e comunitárias, porque é um elo diferente. Elas partem da própria necessidade daquela comunidade, é uma construção social daquela comunidade”, finalizou Luciane Cavalcante.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.
O contexto em que o Medeia.Info atua é marcado por dados alarmantes: a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, indica que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos já foram obrigados ou ameaçados a ter relações sexuais contra a vontade, e 18% relataram toques ou exposição indesejada. Em paralelo, boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde mostram mais de 200 mil notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes entre 2015 e 2021, evidenciando que bibliotecas escolares e comunitárias podem funcionar como espaços estratégicos de detecção precoce e encaminhamento à rede de proteção, e não apenas como locais de acesso a livros.
Há também um movimento institucional que reforça o papel das bibliotecas no enfrentamento à violência de gênero: a Lei nº 14.164/2021 tornou obrigatória a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher e, em 2024, a Portaria Interministerial MEC–Ministério das Mulheres começou a regulamentar a inclusão desses conteúdos nos currículos da educação básica. No Senado, o PL 577/2024 propõe que bibliotecas de escolas públicas ofereçam obras sobre equidade de gênero e direitos das mulheres, o que coloca iniciativas como o Medeia.Info em sintonia com uma agenda nacional mais ampla e aponta para a necessidade de formação continuada de bibliotecários como agentes de mediação crítica diante da misoginia que hoje se organiza em plataformas digitais e atinge diretamente adolescentes.
Este conteúdo baseia-se na reportagem original da Agência Brasil e inclui informações e perspectivas adicionais. Link para reportagem original.
