A ONU Mulheres e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançaram um guia com orientações às famílias sobre os perigos da exposição de meninos e jovens à chamada machosfera, espaços nas redes focados na masculinidade e que promovem a misoginia (ódio, aversão e desprezo contra mulheres e meninas).
Chamado de No Mesmo Time: Guia de Conversa para Pais e Responsáveis, o guia explica o que é a machosfera, como funciona, impactos prejudiciais na vida dos jovens e traz formas de promover o diálogo dentro de casa.
Um levantamento feito pela Revista AzMina e o Núcleo Jornalismo (2025), citado pelas Nações Unidas, mostra que a misoginia chega às redes sociais de adolescentes de forma gradual e disfarçada, por meio de conteúdos de motivação e autoajuda.
“A machosfera é um desafio de toda a sociedade, com consequências reais para a segurança e a liberdade de mulheres e meninas. Este guia nasce para dizer aos pais e responsáveis que eles não estão sozinhos e que não precisam ter todas as respostas. Quando os adultos abrem espaço para conversas francas e sem julgamento, mostram aos meninos que respeito e igualdade também são coisa de time. É assim, dentro de casa, que começa a prevenção da violência”, afirma Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil.
O que o guia traz:
- explicação dos principais grupos e termos da machosfera e de como os algoritmos levam esse conteúdo até os jovens;
- sinais de alerta de mudanças de comportamento e de linguagem;
- dicas práticas de conversa, com perguntas para desenvolver o pensamento crítico sobre mídia, adaptadas por faixa etária;
- orientações específicas para apoiar meninas expostas a conteúdo misógino;
- caminhos para falar sobre igualdade de gênero no dia a dia.
O representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman, alerta que a importância das famílias, escolas e das comunidades oferecerem referências positivas sobre a masculinidade no momento em que os adolescentes estão construindo a identidade e evitar que sejam expostos a conteúdos com estereótipos e intolerância de gênero.
* Com informações do Unicef
O lançamento do guia ocorre em um cenário de escalada mensurável da misoginia digital no Brasil: dados da SaferNet mostram que as denúncias de violência ou discriminação contra mulheres na internet cresceram 224,9% em 2025, saltando de 2.686 para 8.728 casos, tornando-se o crime de ódio de maior aumento no período. Esse avanço não é apenas quantitativo, mas também qualitativo, com canais misóginos no YouTube somando 3,9 bilhões de visualizações entre 2018 e 2024, o que revela um ecossistema lucrativo de conteúdos que normalizam a hostilidade contra mulheres e ampliam o alcance da machosfera entre adolescentes.
O impacto desse ambiente não se limita às redes: em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, o maior número da série histórica, e 950 casos apenas no primeiro semestre de 2025, segundo monitoramentos especializados, indicando uma correlação preocupante entre discursos de ódio online e violência extrema offline. Paralelamente, o IBGE aponta que três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos no país se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes, quadro que especialistas relacionam à pressão de modelos de masculinidade tóxica difundidos na machosfera. Assim, o guia da ONU Mulheres e Unicef tem potencial não só de prevenção da violência de gênero, mas também de intervenção em saúde mental juvenil, ao oferecer ferramentas de diálogo que contestam narrativas de ódio e isolamento emocional entre meninos.
Este conteúdo baseia-se na reportagem original da Agência Brasil e inclui informações e perspectivas adicionais. Link para reportagem original.
