Menino órfão de mãe e autista vendia doces na orla quando foi filmado, coagido e rejeitado por declarar voto; caso escancara a perversidade do ódio político que escolhe os mais vulneráveis como alvo.
Não se tratou de uma “brincadeira infeliz” ou de uma “divergência eleitoral acalorada”. O que ocorreu na orla da Beira-Mar, em Fortaleza, foi um ato explícito de crueldade, aporofobia e violação dos direitos mais elementares da infância. Uma mulher adulta, munida de um celular e em busca de validação algorítmica, transformou uma criança em situação de extrema vulnerabilidade social em troféu de humilhação ideológica.
O episódio, revelado e documentado pelo portal Metrópoles, expôs o momento em que Matheus, um menino que vendia doces no Mercado dos Peixes para ajudar no sustento doméstico, foi abordado por uma autointitulada influenciadora digital. Ao ser interrogado pela mulher sobre sua preferência política, a criança mencionou o presidente Lula. Em resposta, a adulta exigiu que ele fizesse o gesto do “L” diante da câmera e, logo em seguida, recusou-se com desdém a comprar os doces que o garoto oferecia. Para consumar o ataque na internet, publicou o vídeo debochando: “Vai na mamãe e manda ela fazer o L”.
A perversidade do ataque ganha contornos ainda mais revoltantes diante da realidade da vítima. Conforme apurou o Metrópoles, Matheus é uma criança autista, perdeu a mãe e é criado pela avó. Submetido precocemente ao trabalho informal nas ruas para garantir a sobrevivência básica, o garoto foi encurralado por uma covardia dupla: a disparidade de poder entre um adulto e uma criança, e o abismo econômico entre quem consome lazer na orla e quem precisa vender doces para não passar fome.
A atitude da agressora não fere apenas a ética humana; desafia frontalmente o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que veda a exposição vexatória, o constrangimento e a exploração da imagem de menores para fins degradantes. A violência política, quando desce ao nível de negar a compra de um doce a uma criança órfã por rancor partidário, perde qualquer verniz de disputa de ideias e assume sua faceta mais crua: o sadismo de quem se compraz em esmagar quem não tem condições de se defender.
A resposta social, contudo, traçou a linha que separa a barbárie da solidariedade de classe. Enquanto a agressora apagava rastros e se refugiava em notas protocolares de desculpas em uma nova conta virtual, moradores, entregadores de aplicativo e coletivos de motociclistas organizaram uma rede de apoio real, comparecendo à residência de Matheus para garantir dignidade material e afeto à família.
A desumanização do outro atinge seu ápice quando o ódio a um projeto político autoriza o linchamento moral de crianças e trabalhadores. Nenhuma divergência partidária pode servir de salvo-conduto para a covardia e a violência.
Reportagem produzida com base nas apurações e informações publicadas originalmente pelo portal Metrópoles.
TEXTO DE OPINIÃO | PORTAL NEGOPB