Antes de chegar ao Hospital Metropolitano, em Santa Rita, Revellis já enfrentava uma trajetória de perda progressiva dos movimentos. Segundo a médica intensivista Andréia Fumagalli, que acompanhou o paciente durante a internação, ele havia começado a apresentar perda de força cerca de três anos antes e, ao longo do tempo, evoluiu para uma importante limitação motora, tornando-se completamente dependente de cuidados, mesmo tendo passado por uma neurocirurgia, realizada em outra unidade hospitalar.
Foi nesse contexto que um tumor na medula foi identificado e o paciente chegou ao Hospital Metropolitano para a realização de uma nova cirurgia, no início de abril. O procedimento, inicialmente, transcorreu conforme o esperado. No entanto, após a retirada do tubo de ventilação, o paciente apresentou uma grave piora neurológica.
“Como ele já era um paciente muito limítrofe do ponto de vista nutricional e estava em uma internação prolongada, as complicações foram acontecendo. Em um paciente crítico, com vários dispositivos e vários suportes, as infecções recorrentes acabam acontecendo enquanto a gente não consegue retirar esses dispositivos”, explicou a intensivista.
De acordo com a médica, a própria condição neurológica de Revellis dificultava ainda mais a recuperação. Sem força muscular suficiente, ele não conseguia realizar adequadamente os movimentos necessários para respirar de forma independente, fazendo com que a ventilação mecânica permanecesse necessária por um período prolongado. “Por vários momentos, a gente chegou a achar que ia perder Revellis, porque a gente sabia da gravidade e da baixa possibilidade de conseguir desospitalizar e tirar ele da UTI”, relatou a médica.
Mas, enquanto a equipe enfrentava os desafios clínicos, também buscava formas de preservar a qualidade de vida e a relação de Revellis com aquilo que existia além dos procedimentos e equipamentos necessários ao tratamento. Apaixonado por futebol, ele ganhou um espaço preparado especialmente para acompanhar os jogos durante o período da Copa do Mundo. A iniciativa permitiu que, mesmo internado, pudesse viver momentos de lazer e se conectar com o esporte que mais gosta.
A equipe também reorganizou um espaço de isolamento da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de Neurologia para que a família pudesse permanecer mais próxima do paciente durante a internação. A medida permitiu que a mãe e os demais familiares tivessem um contato mais frequente e participassem de maneira mais ativa daquele período. “Conseguimos, nesse quarto, liberar para que a família ficasse com ele durante quase todo esse tempo, para que a mãe pudesse estar junto do filho dela”, explicou Andréia Fumagalli.
Para a mãe do paciente, Maria da Conceição Ferreira da Cunha, a presença da família e o cuidado da equipe foram fundamentais durante os quase cinco meses de internação. Ela destaca que, em uma trajetória tão longa e delicada, o tratamento foi além dos procedimentos médicos. “Durante todo esse tempo nada faltou para o meu filho. Quando não tinha os profissionais aqui, traziam de fora. E tudo isso foi em função do SUS. Eu quero ressaltar aqui o trabalho humano que é feito com os pacientes”, afirmou.
Entre as iniciativas que marcaram a internação também estiveram os chamados passeios terapêuticos. Com segurança e acompanhamento dos profissionais, Revellis era retirado da UTI para experimentar, ainda que por alguns momentos, ambientes diferentes daquele em que passou meses internado. “Todas as quintas-feiras tiravam meu filho da UTI com toda a segurança. Levavam para o heliponto, levavam para ver o sol, levavam para ver a lua, as estrelas. Tudo isso impactou na melhora dele”, contou a mãe.
A possibilidade de alta não surgiu de repente. Foi construída gradualmente, à medida que a equipe enfrentava as complicações e buscava alternativas para que Revellis pudesse deixar o ambiente hospitalar sem interromper o tratamento. Profissionais de diferentes áreas se mobilizaram para estruturar a desospitalização, organizar os cuidados necessários e viabilizar o atendimento domiciliar. O objetivo era garantir que a transferência para casa acontecesse de forma segura, com suporte especializado e participação da família.
Para Andréia Fumagalli, a alta representa muito mais do que a saída física do hospital. “Quando a gente consegue tirar um paciente da UTI depois de tanto tempo, é uma vitória muito grande para toda a equipe”, afirmou.
A autorização da assistência domiciliar, por meio do SUS, tornou possível esse novo capítulo da história de Revellis. Em casa, ele continuará recebendo os cuidados necessários e permanecerá próximo da família, em um ambiente adaptado para acolhê-lo. “Gostaria de dizer que o SUS vale a pena e agradecer a todos os profissionais que se tornaram anjos na vida do meu filho”, declarou a mãe do paciente.



